Diz-se que Jesus amou a João mais que aos outros seus discípulos. Sabendo-se que o Espírito superior dedica igual amor a todos nós, então, não teria havido aí discriminação injusta de Jesus, dando preferência a um estabelecendo, desse modo, diferença com relação aos demais apóstolos?
À medida que crescemos em discernimento moral, modificamo-nos psicológica e psiquicamente. Passamos a experimentar certa mudança com referência a julgamentos por nós empreendidos na vida. Por isso se diz que julga melhor quem melhor entende. Compreenda-se aí o exato sentido de "entendimento" ao qual nos queremos cingir. É precisamente aquele que nos possa oferecer equilíbrio moral para estabelecermos verdadeiro juízo a respeito de tudo quanto possamos apreciar e avaliar. Assim dizemos, dado que muitos são portadores de diversos títulos, possuidores de alto conhecimento científico e até filosófico, gozando de significativo destaque entres os homens, e, quando emitem suas opiniões, em certos casos, vemos muitos deles se distanciarem de um pronunciamento sensato, equilibrado, mostrando ao público quanto desconhecem daquilo que falam.
Quando se possui bom-senso, mesmo sem o querer, exercita-se o seu próprio valor no quanto expresse, que falando, quer escrevendo. Isso se dá porque o seu procedimento na vida passa a receber a influência equilibrada de sua mente, em pensamentos de justiça e de amor. E, quando ele julga pessoas, aprende a distinguir nelas a criatura e os seus atos, visto não sermos os nossos atos, porém criaturas na prática de atos e de coisas. Desse modo, em um sentido mais largo de melhor compreensão da verdadeira justiça, não somos julgados por ninguém, dado que somos nós que inscrevemos em nós mesmos, pelas coisas que fizermos e pelo que formos, o nosso próprio julgamento. Daí sermos diferentes uns dos outros pelas diferenças que em nós trazemos, quais marcas da nossa personalidade, e então passamos a ser recebidos pelos sinais característicos que nos identificam. Verdade é que, perante os homens, podemos iludir a muitos, escondendo nossas qualidades reais, apresentando-nos em nossas máscaras. Todavia, mesmo quando apanhados em nosso erros ou disfarces, não seremos menos amados por aqueles que sabem amar.
Por aí se vê que Jesus detectava a estatura moral e espiritual de João, seu discípulo. O mestre não lhe tinha maior amor que aos outros seguidores, pois os amava a todos, com igual amor. Dá-se, porém, que o "discípulo amado" trazia em si as marcas de Jesus e, como se sabe, os afins se atraem. É questão de sintonia. Caso tivesse o Senhor mais amor por João, ou por qualquer outro, não seria divino o seu sentimento, porquanto estaria ainda sujeito às flutuações humanas, estabelecendo discriminações, separações.
A pergunta, no entanto, tem sentido. "João era homem de profundo conhecimento espiritual e dotado de disposições afetivas que o levaram a ser o discípulo que Jesus particularmente amava", na opinião de John Davis, em seu Dicionário da Bíblia. Muitos atos encontramos na grandiosa vida desse apóstolo, dignos de um autêntico seguidor do seu guia. Estava pronto a imolar-se pelo amor dedicado ao Nazareno, capacitado a beber do mesmo cálice da crucificação (Mt, 20:22-23). Foi investido como símbolo da família universal, recebendo Maria por sua mãe, e esta, a ele, por seu filho: "Vendo Jesus sua mãe, e junto a ela o discípulo amado, disse: 'Mulher, eis aí o teu filho', depois, disse ao discípulo: 'Eis aí a tua mãe'..." (Jo, 19:26-27). Também no instante em que Judas foi indicado como traidor, passando a ser conhecido como tal, certamente num ato de piedade, de imenso afeto e de maior ternura, João reclinou-se sobre o peito de Jesus (Jo 13:25). Esse gesto de afeição diz bem alto do quanto eles se estreitavam na condição de amigos e irmãos.
Há porém, uma necessidade de melhor analisarmos a questão, a fim de compreendermos o amor que a todos une, embora vendo em cada um os traços que os distinguem. Na história dos povos, encontramos o registro de muitos homens que tiveram bem assinalada a sua passagem na Terra. Traziam-se os seus sinais, que lhes eram característicos e, por conseguinte, através deles, destacaram-se. A respeito de alguns, perguntamos: teria Deus dedicado maior amor a Abraão, a Isaac, a Paulo de Tarso e a tantos outros, mais que a qualquer um de nós? Não. Se assim fosse, haveria privilegiados em Sua lei, e ela não seria justa. Os israelitas eram um povo escolhido, e deles se escreveu "não haver distinção entre judeu e grego, uma vez que mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam" (Rm, 10:12). Isso se dá visto que o julgamento se faz sem acepção de pessoas, pois se julga segundo as obras de cada um (I Pe, 1:17). Não foi por ocaso que Jesus afirmou: "[...] Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão" (Jo, 8:30). Sempre houve, como haverá, distinções naturais entre coisas e pessoas, segundo já enunciava Malaquias: "[...] Vereis outra vez a diferença entre o justo e o perverso; entre o que serve a Deus e o que não O serve" (MI, 3:18). Quando "O Senhor abre os olhos aos cegos, levanta os abatidos e ama os justos" (SI, 146:8), não é que despreze os injustos, mas simplesmente porque "[...] Os justos resplandecerão como o sol [...]" (Mt, 13:43), fazendo a sua própria luz e, sem o desejarem, mostram-se, aí, em suas características, como também as sombras que lhes sejam adjacentes.
João fazia brilhar a sua própria luz. Era verdadeiro sol de amor e de bondade, cuja luminosidade faz resplandecer o seu Evangelho, diferente dos demais. Ele recebeu missão diferente na organização do Evangelho, havendo aí uma especialização de tarefas, de obrigações, que lhe foram conferidas pelos planos espirituais, pois lhe coube a sublime tarefa de "revelar o Cristo Divino", na Sua sagrada missão universalista, conforme acentua Emmanuel, na Questão 284 de O Consolador, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier. Enfim, existia, sim, profunda afinidade entre Jesus e o "discípulo amado", visto que os Espíritos simpáticos reciprocamente se atraem, como efeito de laços que os unem, "resultado da perfeita concordância de suas tendências", segundo se vê na Questão 301 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Era o que havia entre Jesus e João: dois Espíritos de elevação, unidos na realização de uma grandiosa missão: de proceder à redenção dos homens.
*Jurista e escritor / Garanhuns, PE - 2011.

Nenhum comentário:
Postar um comentário