Dr. José Francisco de Souza* | Garanhuns, 09/11/1991
Dia de finados, consagrado aos mortos, já está modificando. A crença já não desperta mais a esperança de se constatar a presença dos entes queridos. O fator de ordem econômica reduziu as possibilidades de se renovarem os túmulos. A ostentação não mais se projeta no sentido vertical. Voltou a ser o que sempre foi uma jacente tampa de mármore.
A vida é plena em si mesma. Não implica em exaltação. Ela se manifesta em todas as coisas criadas e existentes no universo do nosso Divino Celestial. É portanto, uma dádiva de Deus. A função do amor que preside a existência faz-se substituída pelo fenômeno da dor que impele para renovação. A história de cada vida é a pedra de toque dos atos, ou melhor de seus próprios atos, que desgasta o tredo engano até que brilhe a verdade em plenitude.
A verdade é a vida. E a vida não se esconde, e nem repousa na escuridão tumular. O cemitério é um dormitório, onde o somático cochile enquanto se decompõe. A difusão, isto é, o poder que têm suas substâncias de se penetrarem mutuamente, também mostra que a matéria é contínua.
Examinando-se uma pedra jacente na estrada, julga-se que está em repouso, pois não é vista a deslocar-se. Quem, no entanto, lhe pudesse penetrar na intimidade da substância, para logo se convenceria de que todas as suas moléculas se acham em incessante movimento. No estado ordinário, esse ato é de todo imperceptível.
Os mentores do mundo espiritual, que iluminam todas as coisas visíveis e invisíveis. Que consagram o mundo de fluídos purificadores entre dois ordenamentos espirituais, testemunham com as suas presenças, que a morte não existe. Que a história de cada existência humana se constata em princípios determinados pelo progresso moral.
A presença dos seres humanos, na Terra, é a síntese dos inúmeros capítulos de outras experiências que se interligam trabalhando futuros sucessos, felizes ou desventurados, conforme as matizes anteriores que os desencadeiam. Quando, advindo a morte, o desenlace, o Espírito desperta, inevitavelmente assomam-lhe o comportamento na esfera nova.
Não sendo esta mui diversa da terrena, ele se entrega ao desbordar da insensatez, naufragando na turbulência do caráter enfermo e postergando o momento da aquisição da paz. Ai nascem os planos para esforços ignóbeis sob o comando da inferioridade mantida, quando seria a oportunidade de reavaliação de resultados, partindo para conquista dos melhores entendimentos são transmitidos, a nós pelos Espíritos executores da vontade de DEUS.
Poucas são as entidades que procuram iluminar os espíritos, ainda preso ao fardo da matéria.
Defrontando a vida depois da destruição dos tecidos carnais seria compreensível que acudissem à mente a noção de imortalidade e a necessidade de fruí-la em experiência de felicidade. Não é porém, o que normalmente acontece. Muitos espíritos permanecem preso aos sentimentos de posse materiais. Esse estado de perturbação os mantém na erraticidade nos umbrais, onde sentem-se influenciados pelas paixões, e hábitos ainda impregnados da vida material. Esse estado se modifica de acordo com o progresso atribuindo ao entendimento de liberdade.
Aferrados aos instintos que vitalizam no jogo das falsas necessidades, aclimatam-se e comprazem-se neles, buscando dar prosseguimento às suas manifestações, mesmo quando desaparecidos os feixes nervosos do instrumento carnal que lhes permitem exteriorização. Daí resulta uma insistente fixação psíquica nas reminiscências que se corporificam, fazendo que os desvarios assumam o lugar da fúria dos desejos, até quando se identifica com o progresso através do entendimento.
Esses espíritos são homens desencarnados, muitos usando de seu livre arbítrio, apreciam a luz das velas acesas pela as almas dos finados. Para a romaria é prova de prestígio.
"Os espíritos nesse dia ao chamado dos que na Terra lhes dirigem seus pensamentos, como fazem noutro dia qualquer. No dia de finados, isto é, nesse dia, em maior números se reúnem nas necrópoles, porque então também é maior, em tais lugares, o das pessoas que os chamam pelo pensamento. Porém, cada espírito vai lá somente pelos seus amigos e não pela multidão dos indiferentes". Um prece feita de alma e coração abertos, é muito mais importante, que a concentração de muitas pessoas em torno dos túmulos pomposos.
Sucedem que as feições legítimas propiciam vitalidade e alegria, pela permuta de vibrações afins, que estabelecem as correntes de segurança e paz nas vidas que se entrelaçam.
*Advogado, jornalista, cronista e historiador.

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