quarta-feira, 8 de abril de 2026

A influência da terra nas letras

Amaury de Medeiros

Amaury de Medeiros*

Um tema constante na literatura é a paisagem que se afigura como um valor humano - construção conjunta do homem. Terra no sentido mais amplo, de alma e chão, tema  para quem vive/viveu a sua própria terra, o solo de seu espírito. O escritor, no processo criativo de mitos e de cultura, integra-se no cenário paisagístico, amalgamando-o  na força de seu imaginário. O historiador Simon Schama lembra, no livro Paisagem e Memória, que "a identidade nacional perderia muito de seu  fascínio sem a mística de uma tradição paisagística particular: sua  topografia mapeada e enriquecida como terra natal".

Paulo Gustavo, poeta e ficcionista, no ensaio sobre o livro  Nordeste de Gilberto Freyre, publicado na revista Arrecifes, afirma que o mestre de Apipucos trabalhou com elementos cósmicos: a terra e a  água, dinamizando a nossa imaginação para além dos dados geográficos. Descobriu o poder sedutor do massapê: "terra pegajenta, melosa, garanhona, que parece sentir gosto em ser pisada e ferida pelos pés de gente, pelas patas dos bois e dos cavalos". O massapê que favorece a criação - sementeira de vida vegetal.

No dizer de Gaston Bachelard, "todos os grandes sonhadores  terrestres amam a terra, venerando a argila como a matéria do ser". O pré-socrático Xenófanes, cinco séculos antes de Cristo já afirmava: "tudo  vem da terra e na terra tudo termina". Bem antes, nos versos de Homem em que diz: "mas que vós todos em águas e terras vos torneis".

Os intelectuais de modo geral se preocupam com as relações do  Homem com o meio físico, sua  adaptação às condições climáticas, reconhecendo a importância da paisagem: florestas, rios, lagoas, planaltos, vales, ventos, sol, luz do luar, céu, chuva, árvores, flores, neve, pedras e montanhas, tudo influindo na maneira de viver e na elaboração dos textos literários.

A natureza em seus  caprichos de fêmea vaidosa assume nuanças variegadas. A roupagem se transmuda assumindo cores e encantos imprevistos. Mário Matos, em seu livro Quarentena, conta que "Antes do entardecer, a tempestade rebentou. O céu baixar e Garanhuns subir até ele. Quase se juntavam. Imersa nas sombras, as ruas transformaram-se em ribeiros. Durou pouco. Um vento uivante vinha do Alto da Boa Vista. Entreabriam-se as nuvens e o firmamento  mostrou-se de um azul puro, filtrando os tons rubros de um sol que se  punha. A cidade inteira luzia, fresca, lavada. Dois jardins vinha um  perfume de bogari, jasmim-laranja e resedá".

De Garanhuns, com aroma de eucaliptos e rosas, minhas lembranças infantis. Os caramanchões da Praça da Bandeira, - agora Praça Monsenhor Adelmar da Mota Valença - se enfeitando de cores na  espera festiva do desfile. Os tambores repetindo as batidas secas e fortes. O som metálico das cornetas coordenando os movimentos. Os  alunos do Colégio Diocesano de Garanhuns, perfilados e garbosos, marcham pelas ruas centrais da cidade.

As lembranças paisagísticas retrocedem aos tempos mais distantes. O verde das matas, com matizes de amarelo e vermelho dos ipês e das acácias, confundindo-se com o céu de puríssimo azul. As cachoeiras cantantes, ébrias de espumas, onde se banhavam ninfas caboclas de cabelos negros colados aos corpos molhados. As águas límpidas do  rio Piranji que se adornam de baronesas nas épocas de chuva. As festas padroeiras com quermesses, paus-de-sebo, alvoradas, zabumbas, buscas de mastro, coretos, bacarás, roletas, pastoris, bumbas-meu-boi e procissões. Repique de sino chamado para a missa. Carrosséis que  rodopiam sonhos de criança na singeleza dos cavalinhos de madeira. A tristeza e o imobilismo das semanas santas quando as imagens se cobriam de fazenda arroxeada e, nos pequenos oratórios domésticos, envoltas em crepe e seda. Fragrância de velhos engenhos suavizando o  soluçar das juritis. Tempo de azul e não. Sangram mulungus no ermo  encantado. Os pássaros nostálgicos waldemarianos vão com as asas trêmulas aflando na viração da tarde, modelando nas nuvens figuras mitológicas, enquanto voga no céu, como uma caravela de fogo, o sol do acaso. Suas longas asas retesadas captam a poesia da tarde fugitiva, mas eterna no instante em que foi bela. Os carros de boi, em mós de  atrito, as raízes da terra triturando. Tímidos passos de criança amortecidos em lágrimas de memória e que se perdem nos encantos da noite,  nos segredos da vida e nos mistérios da morte. Ricos cenários para  poetas e prosadores.

Waldênio Porto inicia seu romance quando se cobrem de verde as baraúnas com força descritiva: "A água da chuva escorre encorpada pelas telhas e despenca do beiral irregular, feito cortina líquida. Cava, com estrépito, poças no chão de barro. Juntam-se e engrossam a corrente, frente às casas, descambando barulhenta pelas ladeiras, a caminho do rio."

José Saramago, único escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, mantém um diálogo filosófico entre as  duas personagens principais do Memorial do Convento, sua obra prima, lançando mão de imagens paisagísticas - nuvens, chuva, céu, montes, colinas, moinhos, vento, sol, sombras -: "Vão Blimunda e  Baltasar a caminho de Lisboa, ladeando as colinas onde levantam moinhos, o céu está encoberto, mal saiu o sol logo se escondeu, o vento é do sul que vem, ameaça muita chuva, e Baltasar diz: Se começa a  chover, não teremos onde recolher-nos, depois levanta os olhos para  as nuvens, é uma única placa sombria, cor de ardósias; Se as vontades são nuvens fechadas, quem sabe se não ficarão presas nestas, tão escuras e grossas que nem o próprio sol se vê por trás delas, e Blimunda respondeu: Pudesses tu ver a nuvem fechada que dentro de ti esta  Ou de ti, Ou de mim, pudesse tu vê-la, e saberias que é bem pouco uma nuvem do céu comparada com a nuvem que está dentro do homem".

De Josué Montello, a mesma influência paisagística em Noite sobre Alcântara - "O inverno se despedia. Dentro de mais alguns dias, o período das grandes estiagens, de sol firme, de noite límpidas, e a cidade a refulgir na claridade das manhãs altas ou a recortar na luz do luar os seus sobrados, os seus mirantes, as suas sacadas, os seus  portais de pedra".

Joaquim Cardozo, em Congresso dos Ventos, poema símbolo das vozes da humanidade, reúne na várzea do rio Capibaribe, os mais  ilustres ventos da Terra. Ventos que têm a missão de unir os homens de todos os quadrantes por meio do intercâmbio cultural. Mistral foi  o primeiro a chegar, "com seus cabelos de agulhas e os seus frios dedos finos". Em seguida, Simum, com suas "barbas de areia quente". Todas as ações humanas são atribuídas aos ventos: conversar, dançar, respirar, contar histórias de feitos guerreiros. Encerrado o Congresso, os ventos erguem-se em alto voo e voltam às suas plagas de origem. O que saiu por último foi o vento Aracati, do Ceará: 

Cortou uns talos de chuva

Com eles fez uma flauta

E se foi, tocando e dançando.

Guilherme de Almeida, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, descobre o espírito brincalhão do vento que se diverte com as folhas dançantes e a capacidade consoladora da natureza que mitiga dores e reintegra o homem ao mundo vegetal. Seguindo o conselho do poeta, quando você precisar maldizer as feridas da vida,  vá sentar-se ao banco dessas praças solitárias em que há árvores idosas sob o céu sem fios. E fique ai um tempo longo. E olhe para uma dessas árvores pensando: mas tão perdidamente , que o seu pensamento tome  a forma dessa árvore...

Neve. Montanha. Ventos frios. Céu mutante no imaginário de  Cecília Meireles.

"Um dia, a neve surpreendeu-me na montanha. O céu estava azul, a paisagem estendia-se imensa e tranquila. De repente, as centelhas de neve começaram a luzir daqui, dali, como vagalumes de prata. A neve caía, cada vez mais densa, e logo os telhados e as árvores foram ficando brancos, e o céu perdeu sua cor, não houve mais horizonte, a  paisagem era uma enorme folha de papel com breves linhas e pontinhos negros, tal uma gravura com sucintas indicações de vales,  povoações, estradas...  Os ventos frios do sul!... Amada neve!"

Cesário Verde nos fala de terrenos escorregadios por onde deslizam os laranjas:

O laranjal de folhas negrejantes

(Porque os terrenos são movediços)

Desce em socalcos todos os maciços,

Como uma escadaria de gigantes.

Na paisagística da produção literária é frequente o surgimento de  pedras.

Se pedras tapetes, diríamos que os caminhos da literatura aparecem floridos pela tessitura dos artistas. Amaciando passos ou dificultando o caminhar. Na imaginação criadora dos escritores, o fascínio das pedras. Encontramo-las de todos os tipos e coloridos. Drumonianas que atrapalham o viajante, autofágicas, sonhadoras, severinas molhadas de suor, preciosas, sóis a brilhar ou testemunhas de sangrentos rituais. Pedras título.

Terra cansada de procriar. Pedras molhadas de suor. João Cabral de Melo Netto. Morte e Vida Severina.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na sina:

a de abrandar estas pedras 

suando-se muito em cima,

a de tentar despertar

terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar

algum roçado da cinza.

Pedra que sonha e que faz sonhar, adormecida no eterno sono. E porque a pedra é feliz? O esquecido poeta olindense José Mindello nos  dar a resposta no livro À Sombra das Árvores, prefaciado por Waldemar Lopes. No abandono em que jaz, muda, sombria,

um sonho doce embala o seu mistério...

Dorme, feliz, o Grande Sono - altera-o

embora a voz dos ventos, fugidia...


A alma da Noite, desce lenta e fria...

Desce... Envolve-a em seu manto escuro e etéro

e a pedra sonha... E o espírito sidéreo

da Noite beija-a em vão e a acaricia...


Nada a interrompe em seu torpor silente:

de reviver no Tempo eternamente

podem arder os homens na ânsia imensa...


Que no silêncio augusto do abandono,

jamais despertará do eterno sono

a pedra que é feliz - porque não pensa!

O poeta Austro Costa, nos lembra a Pedra de Bolonha:

Diz-nos Goeth que a pedra de Bolonha,

exposta à luz solar,

tanto os raios lhe furta, e absorve, tanto,

que fica luminosa, e, à noite, há quem suponha,

cheio de espanto,

que ela é um sol a brilhar...

Pedras preciosas. Joaquim Manuel de Macedo, o médico que resolveu ser escritor, enfeita passagens de A Moreninha com a esmeralda e o camafeu. O processo extrativo de diamantes inspira a obra Cascalho de Hebert Sales, membro da Academia Brasileira de Letras.

Pedras títulos. Aquelas que se juntam, se agrupam, num octossílabo perfeito no verso de Marco Pólo Guimarães - "Somos pedras que Se consomem" e que Raimundo Carrero escolheu como título de um de seus mais belos e originais romances cujo tema é o tempo que passa inexorável como nós também passamos, "pedras que se consomem".

Da coletânea A Educação pela Pedra de João Cabral de Melo Netto - os poemas devem ser trabalhados de forma rigorosa e sistemática para obterem a consistência e a resistência de uma pedra. Depuração poética. 

Imagem de pedra, livro de poesias de Lucilo Varejão Filho, membro da Academia Pernambucana de Letras e organizador da coletânea "Os velhos mestres do romance pernambucano".

E a mais preciosa de todas as pedras - octogenária, rubro-negra, coberta de realeza, cansada de homenagem, que num riso largo e festivo se ergue altaneira nas serranias de São José do Belmonte. Dela o  misterioso nascimento de Quaderna - nosso Dom Quixote sertanejo - que pinta e borda em terras secas dos Cariris Velhos da Paraíba do  Norte, nos lajedos e serrotes, no topázio castanho e rude dos prados. Pedra real que será homenageada hoje à tarde neste Festival e amanhã desfilará gloriosamente pelas ruas da cidade.

Minha homenagem final ao professor Manoel Corrêa de Araújo - geógrafo, historiador, economista, antropólogo, escritor com mais de  100 livros e 300 artigos publicados, membro da Academia Pernambucana de Letras e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, recentemente falecido. Seu livro A terra e o homem do  Nordeste, publicado em 1963, foi considerado pela Câmara Brasileira do Livro como uma das 100 melhores publicações do século passado. Leonardo Dantas descreve-o muito bem: "espírito de luta, capacidade de reação, disposição para o trabalho, desejo de conciliação, procura de progresso, de choque de ideias e de realizações". Daquelas personalidades que servem para guiar um povo, para mostrar caminhos. Saudades!

*Amaury de Medeiros, médico, membro da Academia Pernambucana de Letras, ensaísta, colaborador de jornais e revistas científicas.

Conferência de Amaury de Medeiros no II Festival de Literatura de Garanhuns - FLIG, realizado de 5 a 8 de julho de 2007.

Retratos de Garanhuns

Anchieta Gueiros e Givaldo Calado de Freitas

Julho de 2015 - Anchieta Gueiros e Givaldo Calado de Freitas. Sede do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns (IHGCG), Praça Dom Moura, 44.

Retratos do Agreste

Da esquerda para a direita: Paulo Sérgio, Anchieta Gueiros, Cláudio Gonçalves e Orlando Almeida Calado

Julho de 2015 -  Da esquerda para a direita: Paulo Sérgio, Anchieta Gueiros, Cláudio Gonçalves e Orlando Almeida Calado. Sede do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns (IHGCG), Praça Dom Moura, 44.

domingo, 5 de abril de 2026

Jesus Cristo

Jesus Cristo

João Marques* | Garanhuns

Jesus, no seu tempo, era conhecido ou reconhecido por poucos. Não eram todos que acreditavam em suas palavras. As curas é que atraiam, e muitos o tinham apenas como mais um profeta. No meio dos discípulos, dos parentes ou da gente que o cercava, era uma pessoa comum, com algumas características próprias ou diferentes.

Seu rosto era natural, de um hebreu normal. E podia ser olhado à vontade. Sorria, também. Sua mãe, também, era normal. E, na época, ninguém a via como santa, era uma mulher igual às outras.

O homem Jesus era bonito, já pela lucidez que transmitia o rosto. Face larga, olhos azulados, sobrancelhas estendidas e finas, e de um brilho escuro. Cabelos e barba alourados e crescidos, não muito longos, conforme o costume. Um sorriso ameno e constante no rosto, de uma expressão animadora. Como quem está sempre contente. Andava de sandálias rústicas, roupa simples. E gostava de ficar só, a não ser quando estivesse conversando ou falando a muitos. Tratava sua mãe como Senhora... seu pai, com uma palavra de tratamento, sem tradução, que significava a pessoa a quem se deve respeito e obediência... Irmãos e discípulos pelo nome, muitas vezes pelo nome e o sobrenome. Era costume. E, apesar de homem simples, tinha gestos solenes, tratos amáveis.

Não repetia o que havia dito, ou o mesmo assunto, preferia dizer com outras palavras, como se falasse de algo novo. Sua fala era muito viva, vibrante, daí ser sempre superior nos diálogos. Numa conversa, ninguém conseguia contrariá-lo. Inclusive, os governadores e os sacerdotes não tiveram condição de conversar muito tempo. Não permitia ser tratado como Senhor, ou de forma diferente, com reservas. Recolhia-se da presença de todos, quando ia orar. E aos olhos de alguns, parecia outra pessoa, tal a atitude de paz e transfiguração do rosto. Quando reapareceu aos seus apóstolos, ressuscitado do corpo crucificado, a aparência não pôde ser reconhecida por todos, e nem todos o viam direito... Em espírito, o seu rosto ficou mais rejuvenescido, e de uma luz tênue e atrativa. É o que sei, pelo pensamento e pela graça de Deus.

*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor.  Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro. João Marques dos Santos desencarnou em 22 de setembro de 2024.

Falar com Jesus Cristo

João Marques dos Santos

João Marques dos Santos* | Garanhuns

Não digas Viva Jesus! Diga Vivo Jesus... porque ele disse ser o caminho, a verdade e a vida. Reserve o viva, para quem for merecedor de algum destaque, entre os homens mortais, que carecem de reconhecimento. Jesus Cristo não deve ser confundido com os valores da terra. Ele não é desse mundo, onde se aclamam os sucessos. A linguagem, com Jesus Cristo, deve ser de respeito e humildade. O que lhe agrada não é o que já foi reprovado: SENHOR, SENHOR! mas o que agrada a Deus, fazer a sua vontade.

*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor.  Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro. João Marques desencarnou em 22 de setembro de 2024.

Dinheiro não é tudo


João Marques* | Garanhuns, Maio de 2015

O dinheiro surgiu no passado, como elemento de troca. Objeto para facilitar simplesmente os negócios. E não começou em forma de moeda cunhada ou papel impresso. Tomavam-se animais ou determinado cereal como padrão, de valor certo e combinado, para ser entregue ao vendedor, como pagamento ou compensação no negócio. Com o tempo, veio o dinheiro equivalendo ao ouro. Veio em substituição a vacas ou a outros objetos de  valor. O ouro tomou conta do mundo. Dos negócios e da dignidade humana.

O substantivo "avareza" foi acrescentado ao dicionário e à vida. O avarento, que só pensa em acumular dinheiro. Não se satisfaz só com o necessário. Quer sempre mais e por isso, não ajuda a ninguém. E, se ajuda, faz em poucas ocasiões e ao mínimo que possa. Faz muita conta do que lhe pode diminuir a fortuna. É como se a pessoa não se satisfizesse como o ar que respira. E quisesse cada vez mais ar, para respirar igual a um grande animal -  um rinoceronte. Quer ser tempestade. Abismo profundo, para engolir tudo ao redor.

Há estas pessoas entre nós todos. Não se refere aqui os afortunados, os que trabalham e têm bens, dinheiro, ouro. Não são estes, desde que não sejam mesquinhos. O que se diz aqui são os desgraçados, por abundância. Que fazem questão de importância irrisória, que não vai afetar a monta dos lucros e nem prejudicar o STATUS conquistado. A ganância é exercida nos negócios, para assegurar mais e mais o poder de possuir muito. E muitos envelhecem e continuam fazendo conta de adição e multiplicação (divisão e subtração, nunca), como se não morressem. A avareza é praticada por prazer, hábito de poupar sempre, amontoar dinheiro no nome próprio. A dignidade para estas pessoas é possuir. O nome é mais significativo. Faz questão de vir a ser lembrado, no futuro, muitas vezes perto de "Finado Rico".

*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, poeta, contista, cronista e compositor. Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município, foi presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Manteve, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro. João Marques desencarnou em 22 de setembro de 2024.

Ivo Amaral assume presidência da associação dos ex-alunos do Colégio Diocesano

Asnar da Mota Valença, Ivo Tinô do Amaral e Monsenhor Adelmar da Mota Valença

Asnar da Mota Valença, Ivo Tinô do Amaral e Monsenhor Adelmar da Mota Valença. O prefeito Ivo Amaral assumia a presidência da associação dos ex-alunos do Colégio Diocesano de Garanhuns em 1978.

terça-feira, 31 de março de 2026

Um homem simples

José Francisco de Souza
José Francisco de Souza

Dr. José Francisco de Souza*

Era um homem simples e sem complicações. Seu mundo interior era ornado de luz. Projetava-se por meio de uma qualidade importante: a sublime faculdade de escutar. Escutar em todas as épocas sempre foi tarefa difícil. Em geral nunca prestamos ouvidos senão à vez de nosso próprio pensar. Ignoramos que o outro é o nosso semelhante. De modo que na realidade nada nós é comunicado. Esse processo não ocasiona a feliz oportunidade porque transforma o homem modesto em complicações filosóficas.

A cultura livresca torna o leitor bem informado sobre pensamentos esquematizados. Em ideias configuradas em textos e contextos e suas passagens paralelas. Nesse labirinto de palavras a nossa mente fica completamente alheia ao sentido real das coisas. Daí a mera convenção de princípios e ideologia. Faz-se mister sintomático casuísmo de qualidades inerentes à personalidade.

As qualidade são frutos de construção nossas. E nunca poderemos esquecer que a escolha divina começará pelo esforço próprio de cada um. Quando isto se verifica ocorre às nossas intenções que determinam assumirmos novas atitudes perante a vida. Para isso é recomendável é o homem se ilustrar pela sabedoria de autoconhecimento. Essa estrutura se constituíra a ponto de sua aprendizagem. Esse foi o comportamento do nosso modesto homem de letras focalizado neste trabalho jornalístico de hoje e de sempre.

MANOEL GOMES DA SILVA (NÉU)

Nasceu aqui em Garanhuns, na cidade das madrugadas loiras cheirando a baunilha. Serra das Antas, Pau Pombo, Vila Maria, Várzea, Jardim e do Magano de olhos fitos sempre em nós. Néu Rodrigues era o nome consagrado pela comunidade dos amigos de sua terra. Abriu os olhos para a vida à rua São Vicente no dia 5 de julho de 1923. Filho de João Gomes da Silva e sua esposa Dona Custódia, verdadeiro ornamento de graça e beleza moral da tradição familiar da terra das flores. Néu Rodrigues iniciou a sua vida com a mesma profissão de seu pai; barbeiro. Frequentou o Colégio Diocesano onde foi aluno aplicado e estudioso. Procurou sempre ceder à sua vocação para as artes. Gostava de teatro, integrante de elencos de alguns grupos cômicos. Integrou-se em muitos circos, fundador do Teatro Ferroviário do Recife. Integrante do Clube Mágico da Capital do Estado. Técnico em telecomunicação com estágio pela INBELSA. Mestre Maçom pela Loja Legionários de Ordem de Jaboatão. Condutor de trem pela REFESA.

Como se deduz o currículo de Néu demonstrava a recomendável participação de seu espírito, em vários segmentos da sociedade. Foi uma figura de destaque em todos os setores de suas atividades sempre crescente. Casado com Dona Maria Luzinete Cordeiro e pai de numerosa prole. Em todas as circunstâncias se conduzia pela inspiração de seu universo moral. Amigo devotado e sincero, foi nosso amigo e admirador, Declarava alguns dos nossos poemas destacando entre eles "Dentro da Noite". Quando nós e o imortal Luís Maia tentamos uma excursão com o Departamento de teatro de Centro de Cultura Intelectual Severiano Peixoto". Néu nos acompanhou por algumas  cidades de Pernambuco e Alagoas. A sua  psicologia revelava profunda emoção no campo da arte poética.

MANOEL GOMES DA SILVA (NÉU)

Passou a residir no Recife. Exercia um cargo técnico em atividades tributárias pelo Ministério da Fazenda. Sua produção intelectual é admirável pelo autodatismo de sua inspiração. Autor de poemas, sonetos e poesias matuta, acrósticos. Interpretação teatral: Ladra, as Mãos de Euridices e a Louca do Jardim. E no dia 13 de maio de 1985, vitima de um enfarte, faleceu e Jaboatão, onde residia. 

*Advogado, jornalista e historiador | Garanhuns, 01 de junho de 1985.

De Labiata a Lagoa da Canoa

José Alexandre Saraiva

Por José Alexandre Saraiva*

A aconchegante Calçado, da Andréia Ferreira e do boi preto de patas brancas (o topônimo surgiu desse detalhe no animal), fica ali à esquerda, entrando por Jupi. Logo após Neves, distrito de Jucati, terá à frente Garanhuns, berço de Dominguinhos, do Quinteto Violado, do sanfoneiro Zé da Onça, Chá Preto, Preto Limão, do Zezinho de Garanhuns, Gonzaga de Garanhuns, de Dalva Diniz, de Anchieta Gueiros, de Antonio Vilela de Souza, de Yale Feitosa, de Zeca Preto, das vaquejadas, dos festivais de inverno e do Castelo de João Capão.

Sabedor de minha queda por Garanhuns, parada de Francisco Rodrigues de Melo antes de chegar a Labiata (Panelas) para construir, no início do século XIX, a capela Senhor Bom Jesus dos Remédios, após longa caminhada desde  Petrolina, Derinho novamente cede-me a palavra.

- Comovente a história desse castelo. O então menino de rua João Ferreira da Silva, nome de registro de João Capão, prometeu presentear a mãe com um castelo medieval igual ao por ele visto num filme exibido no cinema. O primeiro passo foi juntar pacientemente, durante logo período, o bota-fora das construções e das reformas realizadas nas casas da cidade. Doou-se ao sonho até a sua morte, aos 81 anos. A obra, iniciada já na fase adulta, quando era encanador e eletricista, recebeu acréscimos e inovações constantes. O castelo de João Capão e ponto turístico dos mais visitados em todo o Agreste Pernambucano.

Há outro castelo em Garanhuns. Direi melhor: Garanhuns é em si um monumento imaterial sedimentado e erguido nas páginas seculares de sua história. O topônimo da cidade provém de seus habitantes pioneiros - indígenas da nação cariri (Kiriri). Entre outras características, eram aguerridos, calados e sinceros. Garanhuns significa campo dos guarás e dos anuns. A  origem dos cariri, como de resto de todos os ancestrais dos indígenas brasileiros, remonta aos movimentos migratórios de ameríndios andinos. Conforme relata Abdias Moura em seu excelente livro "O Sumidouro do  São Francisco - Subterrâneos da Cultura Brasileira", arrimado em pesquisas científicas, milênios de anos antes do descobrimento da Terra de Vera Cruz, eles teriam fugido do rigor totalitário do império inca e alcançado o nosso solo.

Os primitivos habitantes das terras dos Garanhuns já estavam de certo modo amalgamados com os desbravadores brancos, incluindo europeus, e com os negros fugidos da escravidão quando, no início da década de 1690, o mestre de campo Domingos Jorge Velho estabeleceu quartel general na região para exterminar os remanescentes do Quilombo dos Palmares na Serra da Barriga. Frustrada a primeira tentativa, permaneceu dez meses com seu exército naquelas cercanias planejando o ataque decisivo. "O negro está deliberado a morrer dentro da estacada; pois está inexpugnável",  escreveu ele ao então governador de Pernambuco Caetano de Melo Castro. Por conta disso, pediu e recebeu gigantesco reforço de guerra, conforme relata o historiador paranaense Rocha Pombo, citado pelo pesquisador João de Deus de Oliveira Dias em seu belo livro "A Terra dos Garanhuns". Nesse interregno, dissipou núcleos isolados de resistência, cooptou índios e mamelucos e atraiu apoio de ruralistas em conflito com quilombolas.

A derrocada da Confederação dos Palmares rendeu vastas áreas de terras, no sistema sesmarial, a Domingos Jorge Velho e aos demais envolvidos na guerra. Descontado o quinto da Coroa, o "rateio" baseou-se no nível pessoal de comportamento no massacre. Após o lancinante massacre, os sobreviventes aptos para trabalhos braçais foram divididos na condição de escravos entre seus caçadores. Outros, com mais sorte, buscaram esconderijo nas matas e nas serras distantes. Sítios, currais e fazendas expandiram-se a galope nos arredores da Serra da Barriga e nos brejos de Garanhuns.

A uma dessas propriedades - fazenda ou sítio Tapera do Garcia, de Simôa Gomes, neta de Domingos Jorge Velho -, a História reservaria capítulo especial. Nascida no auge da campanha contra Zumbi, graças a um idílio de Miguel Coelho Gomes, filho daquele mestre de campo paulista com uma nativa cariri, Simôa, embora analfabeta, era mulher inteligente, expedita e generosa. Um dia, no ano de 1756, quando passava os olhos em suas terras montada em cavalo adrede selado, foi tomada de louvável sentimento: decidiu doar parte da fazenda, herdada do segundo casamento, à Irmandade das Almas da paróquia local. A única  condição da então sexagenária dama consistia na destinação dos rendimentos e dos frutos havidos do bem doado à celebração de missas para as almas no  purgatório. Com a finalidade de assegurar a plena satisfação de sua vontade, no termo lavrado em cartório foram nomeados procuradores da própria confraria religiosa. Cem anos depois, porém, constatado o descumprimento absoluto do requisito sine quanon, a justiça anulou a doação e declarou devoluta a propriedade, incorporando-a ao patrimônio público. Na área, encontra-se hoje a "Suiça Pernambucana", erguida entre sete colinas, são elas: Antas, Columinho, Ipiranga, Monte Sinai, Triunfo, Quilombo e Magano. Ainda no distante ano de 1887 Garanhuns recebeu sua ferrovia com ligação para duas capitais, Recife e Maceió. Os ciclos do couro, do café e, mais recentemente, do leite elevaram o município ao maior polo econômico do Agreste Meridional de Pernambuco, reunindo em seu entorno dezenas de municípios. Também é referência regional na área da saúde e na formação educacional, com destaque para os laudáveis colégios XV de Novembro, Santa Sofia e Diocesano de Garanhuns.

O legado de Garanhuns aos pósteros não se limitou ao solo fértil e às riquezas materiais nele produzidas. Na terra "onde o Nordeste garoa", brotaram expressões humanas com presença proeminente nos diversos campos do conhecimento humano. Entre eles, o engenheiro, poeta e pesquisador Ruber van der Linden, idealizador de aprazível parque ecológico cravado no coração da cidade, por ele batizado de Pau Pombo (depois oficializado com seu nome), o escritor e artista plástico Luís Jardim, laureado pela Academia Brasileira de Letras com as obras "Isabel do Sertão" e  "Proezas do Menino Jesus". No rol da vasta criação literária de Luís Jardim, foram ainda aclamados pela crítica nacional os livros "Boi Aruá", premiado em concurso de literatura infantil do Ministério da Educação, e "Maria Perigosa", vencedor em 1938 do tradicional "Prêmio Humberto de Campos" da Livraria José Olympio. Neste último certame, cuja banca contava com abalizadores julgadores, a exemplo de Graciliano Ramos, um dos livros concorrentes era o clássico Sagarana, de Guimarães Rosa, na versão original.

É extensa a galeria dos vultos históricos, literários e culturais da terra de Luís Jardim, sejam eles ali nascidos ou com raízes inquebrantáveis, alguns citados na bibliografia deste trabalho como fonte valiosa de pesquisa. Além dos já mencionados, despontam os  os nomes de Alfredo Leite Cavalcanti, com sua alentada obra "História de Garanhuns"; Augusto Calheiros, "A Patativa do Norte", filho adotivo da cidade, Manoel Neto Teixeira, nascido na vizinha cidade de Itaíba, biógrafo de Pinto Ferreira e autor do luminoso e denso livro "Garanhuns - Álbum do Novo Milênio (1811/2016)"; Márcio Mário de Almeida Santos; Arthur Brasiliense Maia; Luzinette Laporte, nascida em  Catende; Humberto Alves de Moraes; Maurilo Matos, Waldimir Maia Leite; Cônego Magno Godoy; monsenhor Adelmar da Mota Valença; Ronildo Maia Leite; Edson Mendes, Jodeval Duarte; Bahia Filho; Fernando Castelão; Rubens Vaz da Costa; Carmosina Araújo; Gladstone Vieira Belo; José Mário Rodrigues; Luzilá Gonçalves Ferreira; Luís Afonso de Oliveira Jardim; Cristina Tavares e João Marques dos  Santos, jornalista, poeta e escritor, nascido no bucólico povoado Mochila. Autor de "Temas de Garanhuns" e do romance "euHeroi", fundador do jornal O Século e compositor de músicas gravadas pelo Quinteto Violado, da mente brilhante de João Marques nasceu o hino da terra dos guarás e dos anuns:

Filhos da terra, oh! gente
Ergam a voz, brilhem as frontes
Cantando com a alma que sente
E que vai nas brisas dos montes
Salve Garanhuns!
Os jardins, as palmeiras e alguns 
Pedaços do céu... mãos divinas!
Salve as sete colinas!
(...)

A nova safra de intelectuais garanhuenses faz por merecer o bastão cultural recebido das gerações anteriores. Conta com o brilho de uma plêiade de literatos, artistas plásticos, pesquisadores, memorialistas e historiadores, a exemplo, de Igor Cardoso, autor do magistral livro "Fernand Jouteux: O Maestro de Chapéu de Couro". A obra consiste em exaustiva pesquisa biográfica sobre o maestro francês Fernand Jouteux, notável peregrino da arte musical. No fim do século XIX, ele veio conhecer sons e ritmos do nosso país, aportando primeiro no Nordeste. Atraído pelo clima de montanha da "Suiça Pernambucana", anos depois voltou para fincar raízes em Garanhuns, onde adquiriu um sítio batizado por ele de Belle Alliance. Sem delonga, dedicou-se à criação de histórica ópera inspirada no clássico "Os sertões", de Euclides da Cunha. Discípulo do compositor Jules Massenet e aclamado na Europa, Jouteux levou longos anos percorrendo o país em busca de recursos para encenar sua famosa criação, genuinamente brasileira. Já em  provecta idade, pobre e com saúde fragilizada, finalmente contou com apoio de Juscelino Kubitschek, então governador de Minas Gerais (1951-1955), estado onde viveu os últimos anos. Segundo apurou o escritor Igor Cardoso, momentos antes da estreia da ópera em Belo Horizonte, no Teatro Francisco Nunes, o octogenário e incansável maestro Farnand Jouteux desabafou feliz: "Quem, durante 40 anos, não morreu de dor, de certo não morrerá em uma dia de alegria, como este." Morreu dois anos depois. sem bens materiais a inventariar, foi sepultado em jazigo adquirido por um amigo.

- Nota: Matéria extraída do Livro "De Labiata a Lagoa da Canoa" a ser publicado brevemente.

Fonte: Jornal O Século fevereiro|2018

José Alexandre Saraiva (Panelas, 27 de abril de 1954) é um advogado, jornalista, músico e escritor brasileiro. Especialista em Direito Tributário, pertence às seguintes instituições jurídicas: Instituto dos Advogados do Paraná; Instituto de Direito Tributário do Paraná; e Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. É inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Paraná; na Federação Nacional dos Jornalistas, com registro no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná; e na Ordem dos Músicos do Brasil, Seção do Paraná.

Missionário da Pátria

José Francisco de Souza

Dr. José Francisco de Souza* | Garanhuns, 30/04/1983

Para as tropas portuguesas aqui residentes, aqueles que a história consagrou como heróis da Independência eram simples rebeldes, inclusive o SENHOR REGENTE. Os arquivos Espirituais da Independência do Brasil, nos orienta no sentido de que TIRADENTES trabalhava ativamente. A certa altura, consulta ISMAEL, sobre se não teria chegado o momento decisivo. Sentia que era preciso aproveitar a exaltação patriótica dos ânimos. As possibilidades estão dispersas, mas poderíamos reunir todas as forças para  o fim de derrubar as últimas muralhas que se impõem à liberdade da Pátria do Evangelho.  (Reencarnação e Imortalidade).

Valores humanos dos mais expressivos, da época, se concentraram à assimilação da palavra candente de  TIRADENTES.

TIRADENTES


Missionário sublime. Nem sempre este título implica o exercício do poder temporal. Dá-se, por unânime consenso, a todo aquele que pelo seu gênio, ascende à primeira plana numa ordem de ideias quaisquer, a todos aqueles que domina o seu século e influi sobre o progresso da humanidade. Joaquim José da Silva Xavier, foi o missionário de mais amplas liberdades. Símbolo do civismo e dos princípios éticos e espirituais, entre dois mundos, cujo poder impunha a renovação da pátria livre de jugo de Portugal. Os grupos inspirados pelas inteligências de escol se caracterizam pela epopéia cintilante de rebeldia dos autênticos e puros sentimentos de um povo que impunha o lábaro da sua INDEPENDÊNCIA, DA EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DO SOLO PÁTRIO DA TERRA DO CRUZEIRO DO SUL - berço de uma civilização. Fenômenos psíquicos formados de sensação e imagens telúricas. A consciência de seu próprio valor como apóstolo do civismo, era fundamental entre seus  companheiros.


Eis porque, em todas as situações, o ideal divino da fé será sempre o antídoto dos venenos morais, desobstruindo o caminho da alma para as conquistas elevadas da perfeição. SILVÉRIO DOS REIS foi um lapso humano da conjuração, não tinha consciência dos efeitos de seus atos. Célula enferma do organismo social, representante de um caráter patológico dos seus próprios interesses de pessoas contaminados pelos vírus da traição. Traindo os seus companheiros do movimento, transformou em bandeira a cabeça de TIRADENTES, no campo da Lampadosa.

Memórias, crenças e desejos em todos os recantos de VILA RICA, essa beleza da alma desse Brasil Continente, só o grande Alferes sentia plenamente. Tudo que fundamentava a sua emancipação, começou com ELE. Depois da consolidação não poderia deixar de se processar a reforma no eterno presente.

Depois de sua morte, por enforcamento passou ao lado da falange de ISMAEL a convocar nova dimensão de glória no mundo dos Espíritos em prova, para sua superioridade moral de acordo com alto padrão de sua  vida. De suas atitudes e de seus atos. Essa historiologia é fascinante. A fonte de pesquisa são os Arquivos Espirituais da Independência do Brasil. Mecanismo secreto  de altos ensinamentos que purificam e sugerem temas ainda inéditos. É por esse ângulo de vibração pontilhada de harmonia entre dois mundos, que se deve apreciar a missão nobre sobre e a grandeza moral constatadas pelos caminhos da ETERNIDADE. Seus  passos cadenciados e firmes, a serenidade de seu porte em marcha para o patíbulo, revelou a consciência de sua missão, como CRISTO DO CIVISMO. 

Essa atitude caracteriza a sua superioridade em todos os dados do julgamento da percepção de seu superior comportamento, muito acima do nível cultural de seus contemporâneos. As provas têm por fim exercitar a inteligência, tanto quanto a paciência e a resignação. Por meio das provas irrecusáveis veio regular os verdadeiros obreiros do bem, a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo terrestre. Os que estão no mundo dos espíritos já estiverem aqui e os que estão neste mundo vieram de lá.

A missa de TIRADENTES não fora de um simples legislador, teve por exclusiva autoridade a sua palavra, seu VERBO FLUENTE pontilhado de rebeldia cívica. Era um brasileiro de aspirações profundas que dignificam, em todos os tempos, a ALMA NACIONAL.

*Advogado, jornalista, cronista e historiador.

Simplesmente viver


Dr. José Francisco de Souza* | Garanhuns, 30 de maio de 1987

Viver é bem relacionar-se, É sentir profundamente o desejo do diálogo. Um passo deve ser dado no sentido de esvaziar à mente. As ideias preconcebidas induzem a estática mental. Para isso, o mais  importante é o efeito de uma autoanalise completa. Uma espécie de renovação nasce o processo das coisas que nos  rodeiam. Assim a nossa mente se liberta do velho. E passa a se objetivar no currículo do que é novo.

Esse impulso criado, é essencial para que possamos criar um mundo novo. Um diferente estado de relação uma diferente estrutura moral. Essa realidade existe em cada um de nós. É uma nova maneira de viver, agindo harmoniosamente. A busca que gera os conflitos desaparece. Implica em nova maneira de pensar e de viver simplesmente, livre dos problemas. Nós somos os problemas.

A vingança, a violência com a sua crueldade, a destruição do ser humano, através de declaração de guerra em terra, e nas estrelas, são declaradas pelos  homens que ostentam a força pela desumana impiedade. As guerras só se materializam na plenitude selvagem, porque é raro o homem que seja livre. Todos justificam as guerras nacionais e internacionais.

Sem a libertação desses propósitos de  violência, de decomposição física e moral, por mais que fizermos para dissipar a confusão e trazer a ordem à estrutura social, nada conseguiremos. Os sofrimentos se renovam e as angústias permanecem. Tais fatos nos parece evidentes, se observarmos, os acontecimentos políticos e sociais que se desenrolam no mundo. 

Há  o apreender que começa com o autoconhecimento, um aprender oriundo da percepção das atividades diárias, o que fazemos, o que pensamos, a natureza de nossas mútuas relações, maneira como o nosso mundo responde a cada incidente e desafio do cotidiano viver. Se não estamos cônscios de nós mesmos, se  não conhecemos como a nossa mente reage a cada desafio da vida, não há autoconhecimento. Não existe bom relacionamento entre os seres humanos, porque  não alcançamos a sabedoria.

O melhor para os homens é sempre um problema de escolha. O fato de ser melhor não decorre que seja o mais desejável. Ser filósofo é melhor do que ser estupido, e ganhar dinheiro, porém não é  mais desejável para o que carece das coisas da vida. O poder, não deve ser desejável sem a prudência. Mas, a prudência é desejável sem o poder. Uma coisa sempre manifesta por si mesma a sua  essência, não é uma propriedade mas uma definição.

Mas, em grau secundário, a vida de acordo com a outra espécie de virtude é feliz, porque as atividades que concordam com esta condizem com a nossa condição humana. Os atos corajosos e justos, bem como outros atos virtuosos, nós praticamos em relação uns aos outros, observando nossos respectivos deveres no tocante a contratos, serviços e toda sorte de  ações e iniciativas que ligam os homens uns com os outros através do entendimento.

A sabedoria prática também está ligada as caráter virtuoso e este à sabedoria, já que os princípios de tal sabedoria concordam com as virtudes morais e  retidão moral concorda com ela. Ora essas virtudes são humanas, por  conseguinte, humanas são também a vida e a felicidade que lhes correspondem.

As premissas necessárias mediante as  quais se efetua o nosso raciocínio não devem ser propostas diretamente e de forma muito explicita. Convém, que pairemos acima delas o mais longe possível. 

*Advogado, jornalista e historiador 

Foto: Garanhuns - Parque Ruber van der Linden (Pau Pombo. Créditos da foto: Anchieta Gueiros.

Ato de libertar


Dr. José Francisco de Souza* | Garanhuns, 24 de março de 1984

Não é desistência de princípios, nem violação de  todos os sistemas. Implica em alcançar o porque das  modalidades impostas, que nos domina cautelosamente. Com muita sutileza. São normas que a psicologia nos  apresenta como orientação. Nesse estado de coisas a nossa liberdade é comprometida. A nossa atenção é desviada pela representação do exterior. O que representa não é o real. É mais o que queremos. Nem sempre o nosso desejo é bom e razoável. Divergência e acomodações de pensamentos se dividem. Se bifurcam em positivos e negativos conforme o estado de Espírito.

Essa instabilidade emocional domina quase todos os setores da conjuntura política. Afirma-se e nega-se ao mesmo tempo que se elabora algo de estranho. O campo mental de muitos homens amolda-se de modo e de aspecto sui generis. As contradições se revelam e acentuam o seu domínio. É a negação da personalidade. A autoafirmação seria o mais importante a vida do ordenamento social. Essa tomada de posição individual é a linha mais correta da evocação humana. É a manifestação plena de um bom estado de consciência. É a emancipação restrita de certos contornos do mundo social; das comunidades que se chocam e se assemelham pela analogia dos  contrários, dos opostos. A sensação, o contato, e a finalidade do desejo de ser o que  em verdade deveria não ser. Será que refreando os sentidos se alcança o caminho certo para o ato de se libertar?

A resposta é não. Porque não há caminhos para se chegar a um ponto de segurança chamado de LIBERDADE. Mesmo porque na vida não há segurança. Nada é seguro em si mesmo, tudo se transforma. Neste sentido a libertação é algo de novo. Sua busca se opera desde que o homem tomou consciência de si mesmo. Se a libertação se nos apresenta como algo de novo. Não se pode chegar ao novo por caminhos velhos. Liberdade é coisa muito importante. É um acontecimento moral muito elevado. Temos de mergulhar às profundidades do silêncio para sentir o seu  desabrochar. O silêncio que não é fuga à realidade, nem isolamento. É um recolhimento, onde as forças vivas se multiplicam, projetando as vivas expressões do sentimento humano. Quanto mais o homem se aprofunda nos conhecimentos, e sobretudo, nas  sublimações da sabedoria, mais  silencioso, e discreto é o universo mental. Mundo em que a criatividade se renova constantemente.

Olvida-se que a natureza é coisa de sua perfeição, os sintomas modificam-se corrigindo-se espontaneamente por uma espécie de regeneração, ou autodepuração. Podem coexistir caracteres compensados de valor social. Silêncio não é reclusão. É acima de tudo sublimação da beleza interior de cada um de nós. Aí a  fonte das virtudes humanas se purificam. Crescem de dentro para fora, como a flor cuja função natural é trescalar perfume. Quando o homem atinge a maioridade no seu  universo interior passa a ser discípulo amado. E quando se alcança o mandato de discípulo, o MESTRE APARECE. Isso não é muito explicável, porque o que  se explica não é verdade. Note-se o silêncio de CRISTO diante da indagação de Pilatos: "O que é a verdade?".

O silêncio dentro do homem é condutor de libertação porque saboreia-se as leis eternas. Quem nunca viveu essa simbiose do silêncio sominal-sideral não tem a mesma ideia de sua fascinante realidade e indizível beatitude. O homem assim cosmificado, ouve a silenciosa legislação  do universo, e vive plenamente o ato integral de sua libertação.

Advogado, jornalista e historiador.

Sensibilidade

Anchieta Gueiros - História de Garanhuns e do Agreste

Dr. José Francisco de Souza* | Garanhuns, 18 de Julho de 1987

Faculdade de experimentar sensações psíquicas. Percepção de conteúdo e forma. Ordenamento específico que todo ser humano é portador. O seu desenvolver requer apercebimento. É uma qualidade do processamento de suas atividades intelectuais. Da mente que se renova em cada momento, inspirada pelo desfilar do  pensamento criador.

Essa harmonia se sintoniza simplesmente as vibrações do agora. Não se deve perder nenhum instante de nossas atividades. Tudo se renova de acordo com o processo vital da existência. Na ocasião em que as coisas se revelam, é uma complementação à vida de cada um de nós. É uma espécie de élan que nos levará, sem esperar mais nada, à visão da realidade. Chega-se assim a uma mestria da linguagem, que nos permita meditar em voz alta. A base da meditação é o autoconhecimento.

Penetrando nas renovações do silêncio do nosso mundo interior, alcançaremos a tranquilidade que todo ser humano deseja. Percebendo esta oportunidade de agir devemos fazê-lo nesse tempo exato. É o tempo de agir, de deixar as palavras mortas para aqueles que se alimentam delas. Os julgamentos, as apreciações infundidas de pessoas de mentalidade conflitaria, são vias de fugas que se perdem no  espaço.

Os que vivem sob o domínio da sabedoria do silêncio, entendem que o julgamento dos filisteus da cultura, não merecer a audição, bem como a presença dos qualificados pelo entendimento. O homem sofre e goza conforme o uso de sua liberdade. A liberdade depende de certa modalidade do entendimento. Ninguém é obrigado a entender. Contudo, é óbvio que os  que não entendem são sempre repelidos pela razão.

A vida fechada na algazarra de sons, é um instante de poluição sonora. Paralisa-nos fisicamente. E os nossos atos não passam de pálidas imagens das nossas ideias. Especificamente das ideias  portadoras de desequilíbrio mental, ocasionado  pela repetição de opiniões sistemáticas e ofensivas. O cheiro da morte paira sobre o telhado do cubículo do homem escravizado. Do homem que fala de tudo e de todos porque em tudo sente a imagem de seu próprio ser.

É um símbolo de destruição - porque sente o desejo de ser célebre, porque interiormente não é nada. Vazio, sozinho, pobre criatura que se reveste de pumas da celebridade e não tem uma técnica, um talento, e muito mal sabe manejar as palavras. Se nesse processo de exame ou observação se faz uso do método negativo, há então, separação entre o pensador e o pensamento. Entre o homem mentalmente corrompido e a corrução do meio, em que age como figura central.

O fio do nosso raciocínio encontra o patamar de sua tecelagem nesses conceitos aprimorados: "Um recipiente só é utilizável quando está vazio, e um espírito cheio de crença, dogmas, afirmações e citações, é na verdade um espírito estéril, uma máquina de repetição. Deste estado de vazio é que tentamos sempre fugir por todos os meios. É por isso que a solidão é perigosa" Esses tipos vivem na busca constante de outros, ou seja de seus  iguais em pensamentos e palavras.

A solidão coloca o homem apercebido e desejoso e francamente interessado na  sua libertação, num autêntico estado de  receptividade. É um recolhimento, onde  todas as forças vivas do ser humano se concentram num deslumbramento de  seu próprio universo... Neste estado procuramos, então, aquilo que chamamos de  divertimentos, encher o silêncio por barulho que, transportando-nos ao passado ou o futuro, nos afasta do vazio. 

Um notável pregador, cujos sermões se constituíam verdadeira obra de arte sacra. Subiu ao púlpito e abriu a Bíblia para o tema do Sermão, o templo estava literalmente cheio, quando um pássaro penetrou, e voando pelo salão e pousando no púlpito começou a cantar... Quando a ave terminou de cantar, o grande pregador fechou o livro santo e disse: por hoje dou por encerrado a minha palavra.

O canto desse pássaro foi mais uma  revelação que Deus é Perfeito em todas as Suas Obras. Foi um verdadeiro ato puro da natureza. Superior ao esplendor da natureza do verbo humano, onde a sabedoria do silêncio é mais sublime.

*Advogado, jornalista, cronista, poeta e historiador 

Créditos da foto: Anchieta Gueiros.

Movimento e vida


Dr. José Francisco de Souza*

Na vida tudo é constante movimento. As coisas crescem e se transformam. Teremos não só de compreender as suas transformações mas, acompanhá-las em todas as suas modificações. Por isto há ensejos nesta vida em que devemos olvidar as efemérides, para nos integrarmos às coisas sérias e mais importantes. Os fatos dessas naturezas são sempre uma complementação de outros talvez mais consideráveis. Depende de nosso estado de atenção, do apercebimento no anto da  execução. Apercebimento pleno é contemplação.

O cumprimento desse mandato não se impõe a ninguém. Cada um por si precisa se integrar à tarefa escolhida, no sentido de jamais sentir a vida passar imperceptível, como se fosse uma sombra. O indivíduo não pode se alheiar  o ponto de não sentir o que se passa no seu mundo interior. Um instante que perdemos o  contato com a nossa própria vida começamos a morrer. E não poderemos mais recompô-la integralmente. O despertar dessa modorra alarga uma nova perspectiva de vida. Quando as sensações passam e não voltam mais  as mesmas. Voltam vivamente renovadas. Por intuição natural a realidade se configura em outras modalidades. O nosso campo de ação também altera o  seu contexto psicológico.

A nossa conceituação de cada momento depende da  importância que lhe emprestamos. É um resultado do  nosso estado de vigilância. Isto exige a coroação do  centro de todas as nossas atividades. O melhor, como entendemos, nem sempre acontece, embora esteja às  esferas dos limites e das expressões da nossa vida. Os  nossos desejos se constituem ensaios do mundo subjetivo em busca da sua própria realidade. Entra em ação o plano mental, aquilo que se pensa já existe no mundo da mente. Essa força interior em muitos casos tem a capacidade de decisão. Daí os pensamentos  positivos como elemento complementar e decisório.

A constância de séries de acontecimentos, que se revelam nos setores da vida, geram naturais sequências de traumas que comprometem o saldo intelectual e psíquico. Estes traumas se elaboram sutilmente alimentando a ânsia de desespero. Desespero é o medo interior que contagia à vida em relação.

Indubitavelmente, províncias de angústias primitivas e reparadoras existem, nos mais variados recantos  do Universo, assim como vibram consciências escuras e terríveis nos múltiplos estados sociais.  No entanto, o serviço teológico nesse sentido; não obstante respeitável, atento ao dogmatismo. Essa é mais uma das vias de fuga que os domínios das ilusões insistem com receio de enfrentar a realidade. Situações criadas por elas mesmas. Estas situações pertencem ao mundo da realidade. Viver em completa harmonia - cousa que exige grande inteligência e não a persecução de desejos egoístas - então haverá o bem estar para o TODO. Isto é movimento e VIDA.

*Advogado, jornalista e historiador | Garanhuns, 27 de agosto de 1983.

Um pouco de Krishmanurti


Dr. José Francisco de Souza* (foto) | Garanhuns, 12 de Setembro de 1992

A sabedoria  do silêncio se alcança em plenitude, pela concentração do autoconhecimento. Só de uma mente muito tranquila podem nascer coisas grandiosas. E esse estado mental não se adquire por meio de esforço, de controle, de disciplina. Ele acontece natural e espontaneamente. É um ato de  psicologia natural, inerente a todo ser que sentiu o desabrochar do  poder da inteligência. É a beleza interior que dá graça a singular delicadeza à forma ao movimento exterior. E que é esta beleza interior  sem a qual a nossa vida é tão superficial.

Perguntaram a KRISHNAMURTI: Que é o Destino?

"Desejais realmente examinar esse problema? Fazer uma pergunta é a coisa mais difícil do mundo, mas uma pergunta só tem significação se vos interessa diretamente, se levais muito a sério.  Não tendes notado como muitas pessoas perdem todo o interesse depois de fazerem uma pergunta? Há dias um homem pergunta e, em seguida, começou a bocejar, a coçar a cabeça e a conversar com seu vizinho (de cadeira): tinha perdido todo o interesse. Assim sugiro não façais perguntas, a menos que  a tomeis realmente a sério". Agora, começa o raciocínio do Instrutor.

"Este problema do destino é muito difícil e complexo. Vede, quando uma causa é posta em marcha, produzirá inevitavelmente um resultado, um efeito. Se um grande número de pessoas - russos, americanos, ou hindus - se preparam para a guerra, seu destino é a guerra; ainda que alguém que deseja a paz que está preparando apenas para sua própria defesa, apenas, puseram em movimento causas que originam a guerra. Analogamente, quando milhões de pessoas vêm tomando parte, há séculos, no desenvolvimento de uma certa civilização ou cultura, puseram em marcha um movimento pelo qual os entes humanos são  colhidos e arrastados, a gosto ou a contragosto; e esse processo em que se é colhido e levado de roldão por determinada corrente de cultura ou civilização, pode se chamar de Destino. Pode-se chamar de  Destino...

"Afinal de contas, se nasceis filho de advogado e vosso pai insiste em que também vos torneis advogado, se vos submeteis a seus  desejos, ainda que prefirais ser outra coisa, então, evidentemente, vosso destino é ser advogado. Mas, se vos recusardes a ser advogado, se estiverdes firmemente determinado a fazer o que sentis ser correto para vós, ou seja o que realmente gostais de fazer - que pode ser escrever, pintar, ou viver sem dinheiro, pedindo esmolas - se isso ocorrer, tereis saído da corrente, ter-vos-eis libertado do destino que  vosso pai traçara para vós. O mesmo se dá em relação à cultura ou civilização".

"Por isso é tão importante sermos educados corretamente - educados, para não nos deixarmos sufocar pela tradição, para não termos o destino de um dado grupo racial, cultural ou familiar; educados para não nos tornarmos entidades mecânicas, movimentadas para um fim pré-estabelecido. O homem que compreende esse processo em sua inteireza, que dele si liberta e fica só, cria o seu impulso próprio; e, se sua ação consiste em libertar-se de falso para conhecer a  verdade, então esse próprio impulso se torna a verdade. ESSES HOMENS ESTÃO LIVRES DO  DESTINO.

Julgam-se os espíritos e os homens pela sua linguagem. A inteligência longe está de constituir um indício certo de superioridade, porquanto a inteligência e a moral nem sempre andam emparelhadas. Pode um homem, ou um espírito ser bom, afável, e ter conhecimentos limitados, ao passo que outro, inteligente e instruído, pode ser  muito inferior em moralidade. São estes princípios que determinam o  comportamento de muitas pessoas que se dizem destinadas.

Se pudéssemos receber a correta educação desde a idade mais tenra, criar-se-ia um estado completamente isento de contradição, tanto interior como exteriormente, e não haveria então necessidade de disciplina ou compulsão, porquanto cada um faria as coisas completamente, livremente, com todo o seu ser. As disciplinas só se tornam existentes quando há condição imposta pelos que pretendem dominar em lugar do outro.

Os políticos, os governos, as religiões organizadas querem que tenhamos uma única maneira de pensar, porque, se podem fazer de cada um de nós um completo instrumento de sua vontade.

*Advogado, jornalista e historiador 

Krisnhamurti

Anchieta Gueiros - História de Garanhuns e do Agreste

Dr. José Francisco de Souza*

Krisnhamurti considerado pelos iniciados como um grande instrutor; "nasceu em maio de 1895 no Sul da Índia, perto de Madras. Oitavo filho de uma família de brâmanes e recebeu este nome em  homenagem ao deus Krishna.  Natureza doce e espiritual de sua mãe contribuiu para logo cedo se revelasse um caráter meditativo, e como ele mesmo contou mais  tarde enquanto seus colegas de escola sonhavam ser um dia comerciante, "seu coração" se fechava a esta ideia porque  queria entrar no domínio espiritual.

Assim, antes que sua mãe morresse quando ainda não tinha seis anos, aprendeu com ela a busca espiritual que nunca mais esqueceria. Eis pois um menino, muito jovem, que aspira a "outra coisa" além da simples vida material. Natureza excepcional e naturalmente dirigida  para busca interior. nasceu com este dom desenvolvido com a ajuda da mãe, e já  aos seis anos firmemente consolidado. Por volta de 1904, quando Krisnhamurti e seu irmão mais novo, Nityananda, brincavam, um dos chefes da Sociedade Teosófica de Adyar se interessou por eles e  apresentou-os a Annie Besant, admirada com as qualidades das duas crianças, adotou-as e dirigiu seus estudos.

Em 1920 os dois foram mandados para Londres. Na mesma época os chefes da Sociedade Teosófica fundaram a Ordem da Estrela do Oriente, cuja finalidade era agrupar os espiritualistas do mundo inteiro na espera de um grande instrutor. Com 15 anos de idade, foi Krisnhamurti  declarado chefe da Ordem: Órgão de ligação era um impresso o jornal da Estrela destinado a transmitir conselhos aos milhares de membros dispersos por todo o mundo.

Foi nesta época que Krisnhamurti escreveu conforme os ensinamentos  recebidos do seu mestre. Mme Besant, num curto prefácio diz que essas páginas constituem a primeira oferta de Krisnhamurti ao mundo. Uma frase deste livrinho resume - uma parte do seu ensinamento futuro: "A superstição é um  dos maiores flagelos do mundo, um dos  entraves dos quais é preciso se libertar inteiramente". Isto foi escrito por um rapaz de 14 anos. Ainda como sinal do futuro educador, ele escreveu: "Aquele que esquece sua infância perdeu toda a simpatia pelas crianças nunca poderá instruí-las e ajudá-las". Foi também à mesma época, ainda criança, que Krisnhamurti  começou a falar em público. Suas conferências tornaram-se em pouco cada vez mais numerosas. Em 1911, com 16 anos, escreveu Krisnhamurti  o seu segundo livro. "O Serviço na Educação".

Estava em Londres, onde a aproximação da grande guerra criava um clima tenso. Consciente da responsabilidade individual de todo o ser, escreveu esta frase no seu livro: "um crime não deixa de  ser um crime porque é cometido por muitas pessoas". As palavras de Krisnhamurti não foram aquelas que seus tutores esperavam ouvir. Menino ainda já vivia num estado de revolta. Nada lhe satisfazia. Escutava, observava, procurava qualquer coisa além das ilusões das palavras.

A vigília no momento da ação convoca a mais límpida das elucidações do  conhecimento. O EU está sempre em movimento e nunca em repouso. É necessário ficarmos interessados em acompanhar seus movimentos. Essa mutação implica em sentirmos a plenitude sem esforço, nem conflitos. É muito importante a maneira de pensar sem coação dos desejos. Estes são fontes que alimentam o acúmulo de necessidades fictícias. O pensamento correto não tem divisão, entre o sujeito que pensa e o objeto pensado. É preciso que se saiba que o erro consiste em aceitar em vez de compreender. É superando os sistemas e as estruturas particulares ou de qualquer espécie, que poderemos atingir a liberdade.

Entendimento é sobretudo, ação. Apanhar intelectualmente uma ideia, ou um pensamento, não é entender o conteúdo de sua realidade. A vida é para ser vivida e não para ser imitada. Daí a busca de segurança no outro, e o meio de  fuga se impõe. A felicidade está em nós mesmos. Não é questão de escolha, de preferência particular do indivíduo, é  um estado natural de silêncio. Esse perene estado do Espírito vislumbra o panorama das belezas do eterno presente. É pois, uma das modalidades dos ensinamentos de Krisnhamurti, cujo desenlace ocorreu em dias do mês transato, nos Estados Unidos.

A linguagem do Mestre é diferente da linguagem dos "mercadores" da verdade". Suas palavras simples, comuns se  revestiam de significados próprios e especificamente renovadas. Imagens e figuras de pureza  lirial transportando os  seus ouvintes de todo o mundo às asas do  silêncio através do espaço do universo de  cada um de nós. Essa libertação revela que adiante dessa maravilha da vida, somos apenas indigentes espirituais.  Krisnhamurti tomou consciência de que não deveria conhecer o fim que busca a verdade, mas ser este fim. "Quando se procura a verdade, a gente traz o refluxo sobre o rosto. Quando se torna a verdade, a gente não a reflete mais. Ela irradia de modo integral toda a nossa personalidade.

*Advogado, jornalista e historiador / Garanhuns, 19 de abril de 1986.

Créditos da foto: Anchieta Gueiros.

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