Conheci Orlando Cordeiro pelos idos de 1945, ano do final da Segunda Guerra Mundial. Minha mãe tinha uma pensão na Rua da Aurora, no Recife, 317, na qual hospedava rapazes estudantes do interior e de outros Estados. Minhas irmãs mais velhas frequentavam a Igreja Presbiteriana da Boa Vista que tinha como Pastor o professor Jerônimo Gueiros um dos mais respeitados intelectuais de Pernambuco da época. Orlando Cordeiro havia chegado há pouco de São Paulo, como Sargento da Aeronáutica, radiotelegrafista recém aprovado em Concurso Nacional conquistara o primeiro lugar e lhe coubera escolher onde servir.
Escolheu Recife. Queria estudar Direito e sabia que a Faculdade de Direito do Recife era uma das melhores do País.
Em São Paulo começara a vida tardiamente. Somente veio a aprender a ler e escrever depois dos dez anos e aos 14 andava pelos trens da Sorocabana vendendo cocada e estudando à noite, andava doze quilômetros cada noite para ir e vir da Escola. Das cocadas e suspiros vendidos nos trens passou a jornaleiro, que lhe oferecia mais rendimento e a tarefa acabava mais cedo para facilitar os estudos. Na sequência desta luta foi moço cavalariço nas estrebarias da Polícia Montada de São Paulo, sendo este seu primeiro emprego público já pelos 16 anos. Continuava estudando firme. Somente aos vinte terminava o ginasial, cursando em seguida o chamado Curso Clássico de Letras Anglo Germânica. Sempre gostou do alemão, tendo essa língua como sua preferida, embora já fosse familiarizado com o inglês e com o francês. Costumava ler livros - durante o Curso Clássico - em diversas línguas para se habituar com línguas estrangeiras. Lia noites a dentro. Das estrebarias e dos cavalos da Polícia passou a Sargento da Aeronáutica tendo aprendido radiotelegrafia e logrado, o primeiro lugar, em concurso.
Chegando em Recife passou a frequentar a Igreja Presbiteriana da Boa Vista. Cantava no coral como "Baixo". Negro de origem, filho de pai espanhol de olhos azuis e mãe mulata, trazia uma forte voz de pretos africanos. Fazia solos belíssimos na Igreja.
A inteligência brilhante, as pregações inflamadas, os estudos Bíblicos na Escola Dominical como professor, davam a Orlando Cordeiro, sobre todos os aspectos uma invulgar superioridade cultural dentre todos os jovens da sua época. Já velho. Orlando relembrava com tristeza a cerrada oposição que o Pastor Jerônimo Gueiros fazia a ele, seguido por Presbíteros e outras pessoas. Orlando passava ao largo galhardamente com a sua inteligência . No vestibular do Curso de Direito do Recife, ficou entre os três primeiros colocados. Fez um curso sacrificadíssimo. Casou com Elizabete Reinaux, ele já com uns trinta anos. Ela o ajudava muito no Curso. Noites inteiras copiava livros de Direito, que não podiam comprar, para que ele pudesse estudar. A biblioteca (uma das mais completas que conhecemos) de Orlando, ainda hoje guarda os preciosos cadernos copiados por Bety.
Foi aluno laureado. Causou impacto: um moreno no "pódio" do saber jurídico. A repercussão do seu final de Curso foi tão grande que o Brigadeiro, em nome da Aeronáutica lhe presenteou o belíssimo anel de "chuveiro", um grande de rubi e doze brilhantes. Colou grau com a farda de gala da Aeronáutica. Já era primeiro sargento. A banda de música do Quartel General compareceu ao ato e foi o Brigadeiro que lhe pôs o anel no dedo. Dele a Aeronáutica orgulhava-se.
Mas seus propósitos eram outros. Não desejava ficar na Aeronáutica. Sua especialidade não oferecia progresso funcional. fez concurso para juiz, em São Paulo e logrou o primeiro lugar. Escolheu a cidade onde deveria servir. Foi para São Bento do Sapucaí e ganhando novas instâncias: Assis, São João da Boa Vista, Campinas. Tornou-se Desembargador. Aposentou-se cedo, considerando que cedo começara o serviço público como cavalariço.
Orlando Cordeiro teve uma vida vitoriosa em todos os aspectos, com os problemas e as lutas naturais pelas quais todos passamos. Bety foi a grande companheira e ajudadora de todas as horas. A grande incentivadora de tudo o que fez e que conquistou. Tiveram cinco filhos, todos bem encaminhados na vida.
Particularmente a Orlando devo ter ele, feito o meu encaminhamento para os estudos. Levou-me pelo braço para a Escola Técnica, ajudando-me e orientando-me em tudo. Deu-me livros, comprou-me cadernos, discutiu o meu futuro, despertou em mim o amor pelas artes e pela literatura em especial. Tornou-me menino e fez-me homem, levando-me ainda ao redil do Senhor nas aulas da Escola Dominical da Igreja Presbiteriana do Recife. Por tudo isso tenho Orlando Cordeiro como o meu tipo inesquecível.
*Jornalista, professor e historiador. (Transcrito do Jornal O Monitor de 04 de fevereiro de 1989).


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