terça-feira, 14 de abril de 2026

Chico Lorota e Manoel Gato

Anchieta Gueiros | História de Garanhuns e do Agreste

Severino de Albuquerque

Em fevereiro de 1981 o jornal O Monitor publicava - Aconteceu na década de 1920. Francisco de Amélia, que atendia também pela alcunha de Chico Lorota, possuía três quadros de terra que  situava-se a duas léguas de Salgueiro. Quando o ano era bom de inverno, o cultivo de mandioca, milho e feijão até dava para passar, incluindo o lucro que obtinha com o negócio de vender galinhas semanalmente na feira de Salgueiro.

Num dia de feira, em pleno verão, com um sol causticante, lá vai ele com as suas galinhas para comerciar. Uma vez chegando ao local de vender as galinhas, veio o imprevisto: todas elas estavam mortas em consequência do calor. Desapontado, seu Lorota ficou a ver navios. Aí, teve uma ideia. Dito e feito.

Avistou com o seu compadre Manoel Gato e falou-lhe dez mil réis emprestados para comprar os  mantimentos de que necessitava.

Seu Manoel, sabedor de longa data que o seu compadre era um velhaco de quatro costados, pensou um pouco e resolveu emprestar-lhe a quantia solicitada, mas na condição de receber no prazo máximo de oito dias, com o que seu Lorota concordou.

Decorridos dois anos do empréstimo, com um número incontável de cobranças, seu Manoel, num dia  de feira, teve o palpite que ia receber o dinheiro, e assim aconteceu. De certa distância avistou seu Lorota que estava vendendo alguns bodes. Sorrateiro, foi-se aproximando do local onde se encontrava o Lorota, e ficou numa esquina que  distava cinco metros do Lorota com os seus bodes, observando o final do negócio. Viu bem quando o compadre colocou o dinheiro no bolso. Chegou a ele e bateu-lhe no  ombro.

Lorota virou-se e teve a surpresa de ver ali o compadre Manoel que, após cumprimentá-lo, foi logo dizendo:

Compadre, estou aqui para receber o troquinho que você me deve há dois anos.

Então Lorota desculpou-se dizendo que no momento estava  sem dinheiro, pedindo-lhe mais um pouco de paciência, que no fim do mês faria o pagamento, ao que compadre retrucou:

Compadre, não adianta negar. Eu estava naquela esquina de  onde vi você botar no bolso o dinheiro que recebeu pela venda dos  bodes.

É isto compadre. O jeito que há mesmo é lhe pagar. Ponha a mão no meu bolso e retire o seu dinheiro. Você esta vendo esta mãozinha que Deus me deu, ela nunca foi ao bolso para pagar a ninguém.

É isso mesmo compadre.

Visagem

João Marques dos Santos

João Marques* | Garanhuns

Em algum lugar do mundo, uma mulher de cabelos brancos, de rosto humilde e abatido, ajoelha-se em casa, à frente de um quadro na parede, de um Coração de Jesus, com uma fita enlaçada. A expressão do rosto é do mais profundo recolhimento, de quem se sente longe e pobre. As mãos cruzadas, em prece. Não fala, balbucia, pensa, e se dirige intencionalmente a Deus. Mas de tão longe e de tão fraca, que se acha um trapo, uma coisa imprestável, inútil. O que lhe resta é o sentimento de amor, e pede por todos, não por si mesma, para que estejam livres. Pede, principalmente, pelos que estejam mais longe, que não conhece. Com tudo, as mãos trêmulas, agradece por restar-lhe ainda o amor, e pelas mãos de ajuda dessa força levanta-se, beija o santo, vai à janela, abre-a e escancara o maior sorriso que se possa dar ao mundo. Esperem!

*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor.  Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro.

Da Vida

João Marques dos Santos

João Marques* | Garanhuns, 15/11/2023

Chego à certeza de que viver é igual a ficar numa escola, em um determinado nível ou curso de formação. O aprendizado está em tudo, na alegria e na dor. O tempo, como nas estações, determina para cada pessoa fases mais ou menos intensas, satisfatórias ou não.

É grande a juventude, e maior o envelhecimento. Em cada quadrante, divisões em diferentes vivências. Umas de favorecimentos, outras de contrariedades. Todas são livros abertos, para os devidos aproveitamentos morais.

Chego à racionalidade de aceitação... receber de bom grado o que se apresenta, que vem mais cedo ou mais tarde. Um tempo de grande renúncia, quando  é preciso apartar-se da vida ideal vivida, dos brios e de tudo que modelara uma personalidade, e aderir de corpo e alma à realidade que se apresenta ou é desvelada como uma pedra, antes escondida entre ramagens e flores. 

E é de bom senso, por toda vida, não se contar com lauréis e diplomas. O espírito de renúncia é sobretudo originado na legítima humildade. É o que da vida se aproveita em caráter peremptório. A vida é assim... o que me ocorre! Um futuro presente e intenso, tão intenso, que se parte, ruidoso, do passado.

*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor.  Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro.

Reflexões

João Marques dos Santos

João Marques* | Garanhuns

Verdade é que essa própria palavra se encontra desgastada. Tantas são as mentiras, as falsidades, os abusos do uso da palavra, que ela perde a credibilidade, e é abalado fortemente o seu sentido. Deus, Espírito, Santidade, Caridade, Amor, e outras, de significados maiores, caem no uso comum da linguagem descompromissada e confusa. No sentido de renovação, que em tudo é necessário, é preciso a recondução dessas palavras significativas, ou a criação de novos termos. Segundo o apóstolo Paulo, a letra mata, o espírito é que vivifica. Por isso, Jesus Cristo não escreveu; na areia, apenas, onde veio o vento e apagou. E Deus nunca pronunciou palavra para o ouvido humano escutar. A sua fala é espiritual.

*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor.  Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro.

É oportuno...

João Marques dos Santos

João Marques | Garanhuns, 31/12/2023

Hoje, poderei morrer, com o ano. Como se morre numa passagem, no finado de um segundo, para o surgimento de um novo tempo.

Mas morrerei, diferente do tempo. Não serei mais incluído no novo calendário. As flores, em vez de florirem o amanhecer, serão sacrificadas, em última instância, para colorirem ainda esse fim vertical. E, longe de mim, o tempo, que se refaz, triunfará a existência... luz e som, e ar e espaço... triunfará da convivência dos homens, de risos e choros, das lembranças do passado e da espera do futuro. A minha cidade será a mesma, do que se vive e dos esquecimentos. De cada recanto de rua, dormirá o espectro do que passou ali... passos, gestos e falas, no teatro da vida.

Eu, hoje talvez, morrerei de ano velho e de tudo que se foi. Os amigos e os acontecimentos de perto. Como era tudo perto, nos anos que nunca morreram!  Morrerei como se morre, incerto, nem por um pouco, do sentido terminal da morte. É que o ser humano, por distante que more, crer mais em si próprio do que nas piores adversidades da vida. A vida é contra a morte. É de se crer mais em uma existência perene, do que numa possível extinção. Contudo, é possível, morrerei hoje. E, amanhã, quando prevalecerá o ânimo da renovação do tempo, festivo, os sinos dobrarão por mim, e alguma lágrima será vertida nos olhos de uma amiga. Daí, serei feito dos rituais fúnebres, das boas referências, do sepulcro, até vir o silêncio, e nele, no silêncio, o sonho, que nunca acaba. Esse é infinito, e a vida existe pela possibilidade do sonho. Ressuscitarei, possivelmente no terceiro instante, com o sonho eterno.

*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor.  Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro.

Ódio gera ódio

João Marques dos Santos

João Marques* | Garanhuns, novembro de 2018

As máximas que, geralmente, se aplicam à vida, são conhecidas. Não seguidas, infelizmente. Se fossem observadas, na prática, por  todos, o mundo seria muito melhor. Ensinamentos predominantes em religiões e códigos morais e filosóficos. O problema, ou o grande problema, é que as palavras são tomadas em diversos sentidos, de acordo com o entendimento de cada um. Daí, esses ensinamentos, do bem, serem empregados, muitas vezes, para o mal. Ou, se não diretamente para o mal, são as máximas tomadas para justificar comportamentos egoístas e agressivos. Adulterados seus verdadeiros sentidos, são as palavras usadas como rótulos ou imagens distorcidas. Assim foi, e é com muitas religiões cometendo absurdos em nome da  verdade.

A verdade, por exemplo. A verdade ensinada por Jesus Cristo não é a mesma verdade de César, de sua moeda, cuja efígie era a sua  própria figura. Essa verdade, a cristã, não é confundível com o que se busca numa campanha política, numa promessa política. A libertação, pelo conhecimento da verdade, é para a vida eterna. Nunca de um governo egoísta, odioso, que se volta para o ouro e para objetivos mesquinhos.

O ódio está arraigado no seio do povo brasileiro, desde a desastrosa campanha política de 2014. A disputa entre Aécio neves e Dilma Rousseff acendeu o ódio e a perseguição. E, na campanha recentemente acabada, o ódio se repete. Muitos dos candidatos insuflaram isso. Perseguição e vingança. Falácias de acusação e humilhação do adversário. Falas ridículas e depoimentos comprometedores, muitas vezes, depois, dados por enganos, equívocos, excessos de entusiasmo. Tudo isso é danoso e dispõe o País a um futuro violento. A verdade, assim, está muito longe do correto, da humanização do povo. E, sem a paz, quaisquer tentativas de governo dos homens é falível, acaba piorando o que já estava ruim. O ódio gera ódio, apenas. Abrandem a fala, o gesto e essa atitude grosseira, dominante entre eleitos, derrotados e o povo que vota. E espera soluções com a paz democrática, e não com perseguições odiosas em nome de uma verdade que não liberta, e não representa a realidade do Brasil. 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Os prefeitos de Bom Conselho na Velha República

Cel. José Abílio de Albuquerque Ávila

João Alfredo dos Anjos

Na relação dos burgomestres da Velha República encontramos alguns que mudaram a face histórica de Bom Conselho, o que é natural no curso do processo da administração pública. Vale dizer também que as circunstâncias políticas e econômicas do momento ditaram o rumo das realizações de cada um.

Dos prefeitos dessa época, ou seja, do período de 1889 à 1930, indicamos três nomes que puderam sobressair entre os demais: Augusto Martiniano Soares Vilela, Lívio Machado Wanderley e José Abílio de Albuquerque Ávila.

O coronel Augusto Vilela antes de exercer dois mandatos de prefeito fora presidente do Conselho Municipal e Intendente, entre 1889 e1892. Porém, em janeiro de 1892 realizou-se a primeira eleição municipal republicana, sendo eleito prefeito o Padre João Marques de Souza, que renunciara antes da posse.

De 1893 à 1896 o coronel Augusto cumpre o seu primeiro mandato; sendo, porém, sucedido por seu filho Cezar Eusthaquio Vilela (1896 a 1899), para depois voltar ao poder de 1899 a 1903.

BRANCA TENÓRIO VILA NOVA

Os primeiros atos administrativos no novo regime foram praticados pelo coronel Augusto Vilela. Dizem que era homem disciplinado cuja palavra mantinha pelo fio do bigode. Deu muita importância a educação e foi ele quem nomeara para o distrito de Taquari a notável professora Branca Tenório Vila Nova, que fizera história no ensino das primeiras letras. Com D. Branca o caboclo da roça ficava civilizado no embalo da palmatória... Não era  só isso, havia mais: O aluno dominava a tabuada de có, porque nesse tempo não havia máquina de calcular, nem tampouco, o método de alfabetização do pedagogo Paulo Freire. Após o coronel Augusto Villela assume o coronel Pedro Urquisa de Carvalho Cavalcanti, sendo eleito em 10 de julho de 1904 e tomando posse em 15 de novembro deste mesmo ano, conforme ofício endereçado ao governador Sigismundo Gonçalves.

O quarto prefeito de Bom Conselho foi o coronel Lívio Machado Wanderley, alagoano de Frexeiras, estabelecido no comércio onde acumulou riqueza. Era homem de muitos compadres e daí foi um passo para ingressar na política. Administrou o Município de 1907 a 1910, durante o governo de Herculano Bandeira. Partidário do conselheiro Rosa e Silva sofrera as agruras da Revolução Dantista, quando seu genro e sucessor José Cupertino foi eleito em 1910 e obrigado a renunciar em 1912.

LÍVIO MACHADO

O mérito administrativo de Lívio Machado foi o de substituir os antigos lampiões por iluminação elétrica; como ainda formosear a cidade com a construção do calçamento do pátio da Igreja Matriz, praças, ruas e a ponte sobre o rio Papacaçinha, dentre outras obras.

Com o término do mandato do coronel Lívio em 1910, assume a prefeitura, como dito, o seu genro José Cupertino Tenório (1910-1912), cuja gestão foi bastante tumultuada devido a oposição da família Vilela e dos membros locais do Partido Republicano.

Por outra parte quem de fato administrara o Município no lugar de Cupertino fora a subprefeito Joaquim Firmino de Araújo, pois, o titular passara quase todo seu mandato em gozo de licença sem vencimentos.

Com o agravamento da crise política, o capitão Joaquim Firmino, estando no exercício da chefia do Município, encaminha ao governador Dantas Barreto ofício datado de 24 de julho de 1912, expondo a situação vivida pela administração local, destacando entre outros, os seguintes fatos: 1) Que o prefeito José Cupertino encontrava-se licenciado; 2) Que o sr. Luís Carlos Vilela, dirigente local do Partido Republicano, estava orientando os munícipes e não pagarem os tributos municipais; 3) Que o delegado de polícia não estava dando as garantias de praxe; 4) Que o alferes Nicolau estava auxiliando a administração na cobrança de impostos, apesar da resistência e oposição da família Vilela; 5) Que pede ao governador providência junto ao chefe de polícia para manter a ordem no Município.

Não se sabe por certo se essa solicitação do prefeito em exercício fora atendida pelo governador do Estado, considerando sua forte ligação política com a família Vilela.

Com a renúncia de José Cupertino em 1912, o subprefeito Joaquim Firmino de Araújo completara o seu mandato até 1913; podendo dessa maneira ser considerado o sexto prefeito da velha República, posto que, Cupertino, o quinto prefeito, quase não exercera o poder.

A partir de 1913 assume a chefia do Município o dantista Luís Carlos Vilela, tabelião, muito prestigiado pelo governador Dantas Barreto.

É bom lembrar que Luís Carlos, dirigente do Partido Republicano local, participara ao lado de Alípio Luna, José Abílio e outros vassouras da Revolução Pernambucana de 1911, pegando em armas e combatendo os "marretas" do conselheiro Rosa e Silva.

Foi exatamente durante esse período efervescente da história de Bom Conselho que surge a figura do coronel José Abílio de Albuquerque Ávila, que ainda jovem assumira a presidência do Tito de Guerra, como também fora nomeado coronel de patente pelo então presidente da República Wenceslau Brás.

Luís Carlos Vilela terminou o seu mandato em novembro de 1916, já no começo do governo Manoel Borba.

Em 15 de novembro de 1916 assume o cargo de prefeito o coronel José Guilherme Rodrigues Laranjeiras, prestigiado empresário bonconselhense, porém, não muito afeito à política, tendo deixado o cargo no final de 1918, talvez por divergência com o coronel José Abílio, que gozava de prestígio com o governador Manoel Borba, causando ciúme político ao coronel Laranjeiras.

Com a renúncia do prefeito José Guilherme,  em 1918, faltando ainda um ano para o término do seu mandato, assume provisoriamente o exercício do executivo o presidente do Conselho Municipal Sr. Clarindo d'Abreu Pereira, conforme notícia o ofício datado de 31 de dezembro de 1918, encaminhando ao Sr. Secretário geral do Estado.

Já em 15 de fevereiro de 1919, João Peixoto Soares comunica ao Secretário Geral do Estado que tomou posse no cargo de prefeito para o qual foi nomeado em 10 de fevereiro deste mesmo ano pelo Sr. Governador.

Observa-se assim que o Sr. Clarindo d'Abreu teve pouco tempo no poder, pois entrou no final de dezembro de 1918 e saíra de fevereiro do ano seguinte, ou seja, esquentou a cadeira apenas 1 mês e dias.

João Peixoto Soares (1919-1920), era pessoa de confiança do Cel. José Abílio, pertencia ao seu grupo político; como ainda o tabelião Lisimaco e o capitão Alfredo Canuto.

Após João Peixoto assumir a prefeitura, em seu primeiro mandato, o mesmo fora sucedido pelo Cel. José Abílio de Albuquerque Ávila (1921-1924), que já vinha fazendo o alicerce do poder desde 1911, quando participara do movimento Dantista, defendendo a bandeira anti-oligárquica do "salvacionismo".

José Abílio, ou melhor o cel. Zezé como era conhecido da matutada, homem de hábitos simples, tolerante e superticioso. Tinha horror ao número treze, fugindo desses dois dígitos como o Diabo da Cruz.

Note-se que amava ao poder e fora prefeito de Bom Conselho quatro vezes, sendo duas na velha república, sempre protegendo afilhados, porém, não acumulou fortuna. Como prefeito calçou ruas, e construiu praças e escolas, como também melhorou a  iluminação da cidade.

O cel. José Abílio foi sucedido, após seu primeiro mandato, pelo coletor Ulisses Tenório (1924-1927), homem culto e pai de filhos ilustres. Lia Balsac com facilidade, e tinha um filho coronel da Polícia Militar, um outro Promotor de Justiça, um fiscal do IAA e uma filha casada com o juiz federal Arthur Maciel. Homem sóbrio fez uma administração voltada à educação.

Em 1927, José Abílio retorna ao poder em seu segundo mandato, que terminaria em 1928; porém interrompido em 1927, com a chegada do governador Estácio Coimbra seu desafeto desde 1911, quando Coimbra fugira pelos fundos do palácio, enxotado pela Revolução dantista.

José Abílio acusado de alguns delitos juntamente com seu grupo político. Houve perseguição, fuga e prisão. Ao final, o coronel obteve absolvição sob o patrocínio do notável criminalista José de Brito Alves.

O segundo mandato do coronel Zezé foi completado pelo subprefeito João Peixoto Soares (1927-1928).

É importante lembrar que no segundo pleito disputado pelo coronel Zezé havia como concorrente e adversário o Padre Alfredo Pinto Dâmaso, religioso dotado de grande carisma e forte militante de oposição. Dizem que do púlpito fizera vários libelos acusatórios ao coronel de Papacaça, que fingia nada entender; como bom católico todos os domingos ia à missa da Matriz, pertinho da sua casa, ouvir com devotada atenção a palavra do sacerdote.

Como é do conhecimento notório o Padre Alfredo perdeu a eleição de prefeito para o coronel Zezé, que confiava certamente nas urnas gordas do Taquari e de outros distritos afastados da influência da sede. Nesse caso a palavra do padre não alcançava a vontade eleitoral dos embrenhados currais dominados pelo coronel.

Assim, no final de 1920 o coronel José Abílio abandono o poder municipal e sai, provisoriamente, da cena política, somente voltando após a Revolução de 3 de outubro, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder e do interventor Agamenon Magalhães, com quem gozava de grande prestígio.

Como já mencionado o coronel José Abílio foi sucedido no governo municipal por João Peixoto Soares e este pelo coronel Lourenço Cavalcanti de Albuquerque Lima (1929-1930), considerado último prefeito da velha república, pois, com a Revolução de 3 de outubro de 1930 surge uma nova safra de gestores municipais. Compreenda-se que com o interventor Carlos de Lima Cavalcanti, Pernambuco começa um novo ciclo da sua história política.

Anote-se que na transição entre essas duas fases o coronel Lourenço Lima foi uma espécie de ponte ligando os grupos que se opunham em busca de uma nova ordem. Ele fez um governo curto, porém decidido a realizar algumas melhorias para o Município.

Durante sua administração Lourenço Lima teve também de enfrentar problemas de natureza política, como por exemplo, a resistência de um grupo de comerciantes que se negava a pagar tributos, sob a liderança de Antônio Umbelino Cordeiro, pertencente a Aliança Liberal, conforme relato do Prefeito ao chefe de polícia Dr. Carneiro Leão.

Umbelino insurgiu-se contra o prefeito Lourenço porque não desejava pagar impostos da sua filial de tecidos sediada no distrito de Caldeirões dos Guedes, alegando que a mesma somente funcionava em dia de feira aos domingos.

Outro fato interessante ocorrido no curso da gestão do prefeito Lourenço foi o da compra de um motor de luz alemão que ficara retido no porto do Recife. Por meio de ofício o prefeito solicita ao Governador do Estado interceder junto ao Ministro da Fazenda para obter a liberação do motor de marca Lubek; no que foi atendido com base em lei especial. Depois de liberado e instalado na cidade de Bom Conselho, o dito motor jamais teve o seu pagamento quitado. O governo do Estado como fiador da compra cobrava os títulos devidos e o chefe da municipalidade sempre alegava falta de caixa para saldar o referido compromisso.

O importante nisso tudo é que os habitantes da cidade não ficaram às escuras e seus principais logradouros foram iluminados pela força motriz da famosa máquina europeia.

O prefeito Lourenço Lima também tinha preocupação com o setor educacional, procurando atender sempre que possível o ensino primário das comunidades mais carentes, inclusive, solicitando ajuda ao Estado para esta finalidade. O exemplo marcante desse fato foi o seu pedido ao Secretário de Justiça para instalar em Caldeirões uma cadeira de ensino estadual. Em outra correspondência apresenta ao Secretário Genario Guimarães o acadêmico de Direito Arnóbio Tenório Wanderley, encarregando-o de mandar trazer para o Município móveis e outros equipamentos destinados as escolas localizadas na sede e nos distritos do Prata e São Serafim.

É bom lembrar que o referido acadêmico fora depois de formado nomeado para Secretário de Estado, provavelmente por influência do coronel José Abílio. Desse modo podemos concluir que na velha república Bom Conselho teve cerca de 13 prefeitos; sendo alguns nomeados para completar mandato interrompido por renúncia, como no caso dos prefeitos José Cupertino Tenório e José Guilherme Rodrigues Laranjeiras. Já os prefeitos com maior número de mandatos foram Augusto Martiniano Soares Vilela e José Abílio de Albuquerque Ávila. No entanto, o primeiro eleito democraticamente foi o Padre João Marques de Souza, que renunciara antes da posse. (Transcrito do jornal A Gazeta (Bom Conselho de março de 2017).

A História da Família Gueiros - Parte IX

Rita Francisca da Silva Gueiros, em 1910 - Nasceu em 15/02/1838,  faleceu em 27/06/1912

Brejão de Santa Cruz, mencionada no relatório do delegado José Teles Furtado, era um pequeno povoado, localizado exatamente a meio caminho entre Garanhuns e a Mochila. Afirmava Ruber van der Linden, um estudioso da história de Garanhuns, que o Brejão era "um lugar onde ladrões de cavalo tinham em pouca monta a vida e propriedade das pessoas, de uma população honesta e trabalhadora, que sempre foi submissa e manietada aos políticos", sem ter coragem de reagir, para não sofrer revides violentos (Dias, 1954). Ali residia e "lordeava" uma elite de cafeicultores mochileiros, o que não era exatamente o caso de Francisco de Carvalho Silva Gueiros, assoberbado com a manutenção de sua numerosa família, em Garanhuns.

O casal Francisco de Carvalho Silva Gueiros e Rita Francisca Barbosa da Silva Gueiros produziu nove filhos, adotando ainda uma menina, a saber: Francisco de Carvalho Silva Gueiros Filho, Clarindo Barbosa Silva Gueiros, João de Carvalho Silva Gueiros, Antônio de Carvalho Silva Gueiros, Jerônimo da Silva Gueiros, Maria da Silva Gueiros, Josefina da Silva Gueiros, Amélia da Silva Gueiros, Francisca da Silva Gueiros, Anália da Silva Gueiros (adotiva).

Francisco de Carvalho Silva Gueiros, em 1850 - Nasceu em 29/07/1829, faleceu em 26/06/1906.
Dono de hospedaria em Garanhuns, o casal e filhos viviam nessa época como uma família típica da terra, trabalhando e se divertindo, sem grandes perspectivas na vida, e sem conhecimento do mundo maior, quer seja do Brasil, ou do exterior. Eram inveterados festeiros. Os filhos, Antônio e Jerônimo Gueiros, mais tarde pastores presbiterianos, eram famosos localmente como tocadores de sanfona. Antônio era reconhecidamente o melhor sanfoneiro da cidade. 

Escrevendo sobre esse aspecto folclórico da vida da família, o  médico e pastor presbiteriano Dr. Israel Furtado Gueiros assim registrou: "Toda família gostava muito de danças. Antigamente as casas tinham piso de tijolo e na casa dos Gueiros ele se desgastava no centro da sala de tanto dançarem. Tudo era motivo para uma dança. Antônio e Jerônimo se revezavam na sanfona. Aos sábados nunca faltava uma festa. Quando o baile não era na casa dos Gueiros, era na casa de Teófilo de Azevedo ou na de Belarmino Dourado. Os pais confiavam as filhas aos Gueiros porque sabiam que na companhia deles as moças estavam a salvo de qualquer insulto ou qualquer pilhéria. Depois da dança, acompanhados das irmãs, iam levá-las à casa dos pais" (I. Gueiros, 1971).

Antônio de Carvalho Silva Gueiros, 1950
Lamentava o pastor Antônio Gueiros que todos eram também chegados às bebidas alcoólicas. O próprio Antônio, antes de sua conversão ao Evangelho, assim deixou registrado o missionário escocês Henry Jonh McCall, chegava a beber meia garrafa de gin em uma festa, e depois passava a criar casos e a puxar brigas, chamadas de "boruço", no linguajar dos jovens da época. "Brigas essas quase sempre resultando em facadas e punhaladas", acrescentou o escocês. Nisso eram todos eles culpados, até mesmo os policiais da família. Eram "policiais policiáveis", na expressão do governador de Pernambuco Eraldo Gueiros Leite, descendente dos mesmos.

Além da sanfonista e brigão, Antônio Gueiros era repentista - poeta e cantor repentista - que participava de desafios nas festas da cidade. Chegou a ter mais de 200 "repentes" preparados, que evidentemente não eram tão "repentes" assim - "truque de repentista", explicava ele à filha, professora Noêmi Gueiros Vieira. 

Por alguma razão nunca explicitada, ao se converter ao Evangelho, e de mudar de vida, Antônio Gueiros abandonou não apenas a sanfona mas também a arte de versejar, talvez por considerá-las "atividades mundanas". O irmão mais jovem, o pastor Jerônimo Gueiros, ao contrário, tornou-se famoso poeta - famoso pelos menos no Nordeste e no ambiente evangélico brasileiro - autor de inúmeros poemas e hinos religiosos, ainda hoje recitados e cantados nas igrejas evangélicas do Brasil.

Em se tratando de poeta e literatura em geral, todo o Nordeste era e ainda é rico em poetas repentistas e poetas do povo. Dentro de uma tradição ainda medieval, recitavam, e todavia recitam, seus longos poemas nas feiras, criando assim o grande acervo literário popular do que hoje se chama de "literatura de cordel".

Tão medievalesca era essa tradição que, dentre muitas dessas peças de literatura popular, até bem recentemente ainda vendiam-se nas feiras do Nordeste livros e folhetins em prosa e verso, cantando as glórias do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, heróis de inúmeras gerações de sertanejos. Símile aos medievais, os sertanejos nordestinos acreditavam em "corpos fechados" pelo poder de Deus, infensos às balas e aos punhais, e na capacidade do homem de pelo poder de Deus fazer coisas sobrenaturais, como fazia o cavaleiro Roldão dos folhetins sobre Carlos Magno, que cortava a cabeça de dez mil mouros com um só golpe de espada. D. Sebastião, o tresloucado rei pós-medieval português, crera também piamente que com uma só espadada cortaria a cabeça de "10.000 sarracenos", quando em 1578 foi à África em conquista de Ceuta, e lá ficou morto em Alcácerquibir. 

Tem-se pouca informação do tipo de trabalho no qual se engajavam os membros da família Gueiros, além do velho Francisco e sua mulher D. Rita Francisca, donos de uma hospedaria. Dois dos  filhos, Francisco Gueiros Filho e João Gueiros, foram comissários de polícia, após a proclamação da República. Sabe-se também que, em 1894, Antônio Gueiros, então com 24 anos de idade, e o jovem Jerônimo Gueiros, então com 14 anos, trabalhavam em uma marcenaria pertencente ao irmão mais velho, Francisco Gueiros Filho. Esse trabalho começara em consequência da "Lei Áurea", que  causara a  perda dos escravos da família. Os ex-escravos se estabeleceram no quilombo do Castainho, na periferia de Garanhuns, e os rapazes tiveram então de enfrentar a "vergonha" de trabalhar com as próprias mãos. Tão vergonhoso era esse tipo de atividade que até bem recentemente, na década de 1940, os homens de classe média no Nordeste, símile aos mandarins chineses, deixavam crescer as unhas dos dedos mindinhos, a fim de demonstrar a todos não serem operários, pois não trabalhavam com as mãos.

Jerônimo da Silva Gueiros, Recife, 1948
Marcenaria na época era trabalho pesadíssimo, feito com ferramentas primitivas e inadequadas. Utilizavam madeira de lei, para fazer móveis: pau-ferro, angelim, maçaranduba e especialmente o amarelo-vinhático, todas elas madeiras duríssimas. Essas eram trabalhadas com primitivos serrotes e plainas, deixando os braços e as mãos dos rapazes tão doloridos que mal os suportavam no final do dia. Antônio Gueiros contava aos filhos, com lágrimas nos olhos ter sido aquele o trabalho mais pesado que jamais fizera em toda sua vida e, sem dúvida, também o mais "vergonhoso".

Jerônimo Gueiros, quando criança, dedicava-se a serviço mais ameno: possuía um negócio de fazer cigarros artesanais, assim contou aos filhos, tendo chegado a fazer 1.200 cigarros em só dia. Era também exímio profissional nos jogos de cartas, sua maior ocupação, antes de sua conversão ao Evangelho (Butler, 1909).

Jerônimo Gueiros não esqueceu o trabalho duro que compartilhara com o irmão mais velho, Antônio Gueiros. Tanto assim que, na madrugada de 21 de dezembro de 1948, quando estava bem enfermo, e imaginando que em breve morreria, escreveu-lhe poema de despedida, no qual relembrava os dias difíceis, quando os dois eram o que chamou de "operários", a saber:

Meu Último Adeus a Antônio Gueiros

Jerônimo Gueiros

Amigo e irmão com quem na vida inteira

Eu quase comparti da mesma sorte,

Ora triste, ora alegre ou na canseira

Em que vimos marchando para a morte.


Seguimos ambos a ideal carreira

Que pela cruz eleva a humana sorte.

Ambos alçamos a imortal bandeira

Do príncipe da Paz, com altivo porte.


Fomos irmãos na vida de operário;

Irmãos na grande proliferação;

Irmãos no estudo em curso extraordinário.


Irmãos até no mal do coração

Que fez dos nossos dias o Calvário,

Que te mando, em pranto, um adeus irmão.

O problema da perda dos escravos também afetou os pequenos cafeicultores de Brejão, como o capitão "Chico Furtado". O problema do capitão foi resolvido de igual maneira: os filhos tiveram que enfrentar o trabalho braçal, no lugar dos escravos. Como o esse tinha apenas um filho e cinco filhas, essas sinhazinhas, que nunca haviam trabalhado no pesado, tiveram de colher as safras de café com as próprias mãos, ou ficar sem elas. O cafeicultores com reservas financeiras solucionaram o problema contratando mão-de-obra paga, em geral os próprios ex-escravos, residentes no quilombo do Castainho e em outras localidades próximas. Não é de causar espanto que toda a região tenha se tornado republicana militante.

Algo curioso da época: conforme ocorrido em muitos outros lugares no Brasil, alguns dos ex-escravos da família adotaram o sobrenome de seus ex-donos. Alguns membros da família Gueiros, recentemente visitando a região da Mochila, encontraram várias  pessoas de puríssima ancestralidade africana, com o sobrenome Gueiros. Em um local chamado Capoeira, encontraram um deles, dono de uma pequena hospedaria chamada "Hotel Gueiros". Esses parentes saíram de lá bastante abalados, vendo esses sobrenome utilizado por pessoas que não eram da família.

Da educação limitada, em 1894, os Gueiros não eram, no entanto, analfabetos. Tinham todos estudado as primeiras letras e as "quatro tábuas de aritmética" - como era então falado - em escolas de primeiras letras mantidas pelo governo do Estado, as únicas  escolas gratuitas disponíveis em Garanhuns, nas quais os professores sempre cobravam algo "por fora".

Jerônimo contou aos filhos que não tinha podido pagar a escola, no entanto encontrara um professor muito capaz e amigo que lhe ensinara as primeiras letras sem nada lhe cobrar. Em notas autobiográficas deixou registrado que estudara as primeiras letras no Colégio Acióly, depois como aluno privado de D. Rena Butler, e no Colégio 15 de Novembro. Presume-se que Acióly tenha sido esse professor tão caridoso e consciencioso que lhe ensinara as primeiras letras mesmo sem remuneração extra.

Sertanejos apenas alfabetizados, envolvidos na política local, e vivendo como a maioria daquela população interiorana, os Gueiros em breve teriam suas vidas totalmente modificadas, com a chegada dos primeiros missionários protestantes a Garanhuns. Essa foi uma modificação profunda, dramática até, que lhes mudou por completo o rumo da vida.

Fonte: Livro - Trajetória de uma Família "A História da Família Gueiros" de David Gueiros Vieira / Primeira Edição Julho de 2008 / Editora Nossa Livraria.

Fotos: (1) - Rita Francisca da Silva Gueiros, em 1910 - Nasceu em 15/02/1838,  faleceu em 27/06/1912. (2) - Francisco de Carvalho Silva Gueiros, em 1850 - Nasceu em 29/07/1829, faleceu em 26/06/1906. (3) - Antônio de Carvalho Silva Gueiros, 1950. (4) - Jerônimo da Silva Gueiros, Recife, 1948.

Prefácio: 'O Diocesano de Garanhuns e Monsenhor Adelmar de Corpo e Alma'

Jones Figueiredo Alves

Jones Figueiredo Alves*

A ideia do homem encontrar a sua humanidade, intrinsecamente essencial de sua  natureza, tem lugar, no passado remoto e feliz de sua formação educacional, em que  todas as coisas foram descobertas, na extensão do mundo revelado. As ideias possíveis da verdade, do amor, da dignidade, da justiça, da realidade espiritual, incorporam experiências na plenitude de um tempo que tem início nos bancos escolares, assinalando o homem, pressentindo a vida. Nos fluxos da vida, em presença dessa época, dir-se-á encontramos o  começo da história pessoal de cada homem, no cerne da preparação das buscas dos sonhos, incluindo a existência, os encontros com as crenças, os anseios de consistência interior, os  fundamentos das práticas humanas.

Na origem da instrução, o colégio é o habitat perene do homem, caracterizado de  unidade de objetivos e ideias, paraíso originário predizendo os tempos, uma solução de  universalidade para todos. Algo além de si mesmo, porque não reduzido às relações dos seus  dias. Permanece ele, íntegro, dentro do homem-aluno, nos lugares onde a alma se encontra inteira, porque vinculado à própria noção de sua legitimação, concebendo-o para a vida.

Nesta acepção, o recôndito do homem envolve, sempre, uma viagem regressiva, porque o seu referencial de existência o conduz de volta, ao colégio, afim de encontrar ali, a revivência de fatos e de compreensões, como expressão fenomênica de suas circunstâncias, do "ego" verdadeiro, do aprendizado de vida oferecido. Encontro do homem ali nascido, de  verdade, para viver a vida.

Essa, a densidade da obra de Manoel Neto Teixeira, ao publicar a história do Colégio Diocesano de Garanhuns, com profundidade e força que ganham ressonância na destreza do seu talento de jornalista e escritor, e com a alegria do espírito de quem teve o privilégio de ser, como eu, aluno daquele estabelecimento, e sobretudo, de aprender com o coração e o exemplo do Padre Adelmar da Mota Valença, seu diretor por quarenta e quatro anos.

Faz ele uma peregrinação de sentimentos, que presta valiosos subsídios ao descrever, com fidelidade histórica e estilo atraente, a fascinante existência do ginásio amigo, querido lar, em seus setenta e nove anos de templo sagrado de luz e saber. Uma sábia e inspiradora iniciativa, feita de amor e de honra, que garante a memória do educandário, olhando-o  em sua magia e em sua dimensão intemporal.

Faz ele, também, uma prospecção virtual dos acontecimentos que  substanciam a grandeza do Colégio Diocesano, na jornada de caminho em compromisso de seu destino, demarcado por tantas lembranças e ações de perenidade, rendido à liturgia de tempos memoráveis, onde toda a intimidade do passado, tem significado de permanência.

O seu trabalho é algo em estado de oração, capturando momentos e personagens identificados na fecundidade do realismo da instituição que tornou-se a maior e mais  tradicional unidade de ensino no Estado. Fundado em 19 de março de 1915 e tendo no prédio da Praça da Bandeira as suas instalações, a partir de 12 de outubro de 1925, constituindo essa a sua data maior, o querido Ginásio, "alto padrão de civismo e de glória" formou gerações, plasmou ideias, fez homens para o país, realiza a História. Manoel Neto, no âmbito desse realismo, soube extrair as situações mais significativas dessa trajetória, com infatigável pesquisa pela tradição e valores do Colégio, marcando os sulcos definidores de sua história, sobre os quais ergue-se a sublimidade do seu tempo.

O Colégio sempre esteve plácido de amor, como caminho de luz, de ciência e de fé, transcendente pela constante e indelével presença do padre Adelmar, com suas aulas de civilidade, a ventura de sua convivência, a autoridade de seus conselhos e ensinamentos. Um santo homem, como a mais afirmativa realidade de Deus entre os homens, regendo a esperança e a paz. Concluinte do Curso Clássico no ano do Jubileu do Ouro do educandário, lembro-me que em saudação feita, em 8 de outubro de 1965, referia que Padre Adelmar "é o cálculo preciso de quanto o Amor se põe a amar, é o original mistério que o conhecimento poético diz desta casa, é a situação histórica do Colégio Diocesano", tamanha a sua dedicação aos alunos e ex-alunos, neles trabalhando a atividade da coragem moral e as exigências ontológicas do homem.

A obra de Manoel Neto Teixeira, nesse particular, alcança nível perfeito de comunhão, capítulo de suas Memórias, em autobiografia inédita, vivificadora em fase de Deus e dos homens. Confissões de uma vida consagrada ao sacerdócio e ao Colégio, germinando o grande experimento do homem concreto, lições evangélicas de primado do espírito e de  profunda doação, numa linhagem de beleza imbatível, com a leveza própria da santidade.

Eis aí um livro que precisava ser escrito e extremamente raro pelo seu valor. Tudo o que o Colégio Diocesano tem sido, feito e pensado, preserva-se em suas páginas, ante o  domínio absoluto com que o seu autor consegue empreender na revisitação ao tempo da  juventude, em regresso à fonte dos idealismos. Um trabalho digno do amor que cada ex-aluno dedica ao Colégio e que servirá, sem dúvida, como síntese desse próprio sentimento. Mais ainda: constituindo-se numa obra  de ulíssea obstinação em responder a esse sentimento, consegue Manoel Neto lavrar o caminho da revisitação com o registro das passagens mais  expressivas, envolvendo pessoas e fatos fundamentais que constituem todas as ênfases desse liame. Almira da Mota Valença, no sorriso de quem ensinou bondade, além de humanidade, os demais professores, no fascínio de cada nova lição oferecida, as cenas do pátio interno, do refeitório e do internato, o hino e a bandeira, a banda marcial e os desfiles do 12 de Outubro, a capela, a sala de recordações, a biblioteca e a secretaria, as salas de aulas como altares de iniciação, os grêmios literários, os episódios da vida escolar, compõem, pontificados com o Padre Adelmar, o entendimento nítido da história do Colégio e do sentido amplo de  todos os afetos, guarnecidos até hoje.

É obra que não serve apenas ao interesse do historiador, ao levantar Livros de Tombo e acervo particular do antigo Diretor. É obra que serve a um tempo que representa o evangelho de todas as coisas, na construção do integral, dignifica-o na sua  evocação, o faz mais do que  nunca presente na alma do leitor. É, pois, uma obra permanente, para ser lida mais de uma  vez.

Manoel Neto Teixeira, jornalista, escritor, advogado, primeiro amigo de todos os que aprendi merecer, concedendo-nos a honra de prefaciar o seu trabalho, favorece-nos uma  feliz oportunidade de nova reflexão com o apaixonante tema de vida que representam o  Colégio Diocesano de Garanhuns e a figura de padre Adelmar da Mota Valença, fincados à prontidão do absoluto, como dádivas no significado vertical de minha existência. Oportunidade, que por certo, cada leitor também obterá, ao encontrar em cada instante da leitura, a intensa vida interior que o Colégio irradia, permanentemente, em todos nós.

Recife, agosto de 1994

(Jones Figueiredo Alves é Jornalista e Desembargador do Tribunal de Justiça de Pernambuco).

Paisagem do mundo

João Marques dos Santos

João Marques | Garanhuns

O céu azul, e as nuvens alvas se estendendo no espaço acima. O campo da frente de casa, até a elevação de um monte, não muito longínquo. Árvores soltas, mato do chão e três caminhos areados que saíam. É importante dizer que saíam, porque a casa onde nasci era a origem. Animais pastando e, de vez em quando, gente caminhando. É a paisagem como lembro. O mundo. O silêncio e, cá embaixo, o verde intenso, juntos formavam a harmonia campestre. Estando eu, menino, à janela da frente ou no terreiro, os meus olhos viam e me deslumbravam. Não era ver apenas, eu pensava tudo.

A existência, eu a percebia, como quem está ante uma surpresa. Existia ali, antes. Eu é que era novo. Menino, como era natural... E que ia crescendo, para meu nivelamento ao mundo. Poder fazer. Importava ser criança, agora, para ir descobrindo como era. E, lúdico, me entreter com as coisas.

Os caminhos eram portas que se abriam, e eu contemplava as curvas. Os pequenos passos, eu compreendia, eram dos caminhos menores, meninos ainda. Viriam, no futuro, as esplanadas, os grandes lances de conquista. Uma vez, num caminhozinho, andava acompanhando imediatamente duas mulheres apressadas... foi preciso correr, para não ficar atrás. Elas andavam, eu corria. Nunca esqueci desse caminhozinho de areia branca, macio, como fosse de nuvem.

O mundo, como uma grande concha, era o da minha impressão. E fazia minhas perguntas... como era? quem fez? até onde ia? Mas as pessoas não sabiam... As poucas  respostas não me convenciam. Eu queria mais. Daí, ser preciso pensar por minha conta. E fiz muitas fantasias, que, afinal, descobri depois pareciam com a realidade. Mas o que ficou para sempre foi essa paisagem do mundo. E prevalece hoje sobre os mais sofisticados recantos do planeta. E, não raro, tanto tempo depois, revejo sentimentalmente a paisagem, e penso no que era, tão impressionante e bela me pareceu ser, nesse despertar da vida.

*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor.  Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A influência da terra nas letras

Amaury de Medeiros

Amaury de Medeiros*

Um tema constante na literatura é a paisagem que se afigura como um valor humano - construção conjunta do homem. Terra no sentido mais amplo, de alma e chão, tema  para quem vive/viveu a sua própria terra, o solo de seu espírito. O escritor, no processo criativo de mitos e de cultura, integra-se no cenário paisagístico, amalgamando-o  na força de seu imaginário. O historiador Simon Schama lembra, no livro Paisagem e Memória, que "a identidade nacional perderia muito de seu  fascínio sem a mística de uma tradição paisagística particular: sua  topografia mapeada e enriquecida como terra natal".

Paulo Gustavo, poeta e ficcionista, no ensaio sobre o livro  Nordeste de Gilberto Freyre, publicado na revista Arrecifes, afirma que o mestre de Apipucos trabalhou com elementos cósmicos: a terra e a  água, dinamizando a nossa imaginação para além dos dados geográficos. Descobriu o poder sedutor do massapê: "terra pegajenta, melosa, garanhona, que parece sentir gosto em ser pisada e ferida pelos pés de gente, pelas patas dos bois e dos cavalos". O massapê que favorece a criação - sementeira de vida vegetal.

No dizer de Gaston Bachelard, "todos os grandes sonhadores  terrestres amam a terra, venerando a argila como a matéria do ser". O pré-socrático Xenófanes, cinco séculos antes de Cristo já afirmava: "tudo  vem da terra e na terra tudo termina". Bem antes, nos versos de Homem em que diz: "mas que vós todos em águas e terras vos torneis".

Os intelectuais de modo geral se preocupam com as relações do  Homem com o meio físico, sua  adaptação às condições climáticas, reconhecendo a importância da paisagem: florestas, rios, lagoas, planaltos, vales, ventos, sol, luz do luar, céu, chuva, árvores, flores, neve, pedras e montanhas, tudo influindo na maneira de viver e na elaboração dos textos literários.

A natureza em seus  caprichos de fêmea vaidosa assume nuanças variegadas. A roupagem se transmuda assumindo cores e encantos imprevistos. Mário Matos, em seu livro Quarentena, conta que "Antes do entardecer, a tempestade rebentou. O céu baixar e Garanhuns subir até ele. Quase se juntavam. Imersa nas sombras, as ruas transformaram-se em ribeiros. Durou pouco. Um vento uivante vinha do Alto da Boa Vista. Entreabriam-se as nuvens e o firmamento  mostrou-se de um azul puro, filtrando os tons rubros de um sol que se  punha. A cidade inteira luzia, fresca, lavada. Dois jardins vinha um  perfume de bogari, jasmim-laranja e resedá".

De Garanhuns, com aroma de eucaliptos e rosas, minhas lembranças infantis. Os caramanchões da Praça da Bandeira, - agora Praça Monsenhor Adelmar da Mota Valença - se enfeitando de cores na  espera festiva do desfile. Os tambores repetindo as batidas secas e fortes. O som metálico das cornetas coordenando os movimentos. Os  alunos do Colégio Diocesano de Garanhuns, perfilados e garbosos, marcham pelas ruas centrais da cidade.

As lembranças paisagísticas retrocedem aos tempos mais distantes. O verde das matas, com matizes de amarelo e vermelho dos ipês e das acácias, confundindo-se com o céu de puríssimo azul. As cachoeiras cantantes, ébrias de espumas, onde se banhavam ninfas caboclas de cabelos negros colados aos corpos molhados. As águas límpidas do  rio Piranji que se adornam de baronesas nas épocas de chuva. As festas padroeiras com quermesses, paus-de-sebo, alvoradas, zabumbas, buscas de mastro, coretos, bacarás, roletas, pastoris, bumbas-meu-boi e procissões. Repique de sino chamado para a missa. Carrosséis que  rodopiam sonhos de criança na singeleza dos cavalinhos de madeira. A tristeza e o imobilismo das semanas santas quando as imagens se cobriam de fazenda arroxeada e, nos pequenos oratórios domésticos, envoltas em crepe e seda. Fragrância de velhos engenhos suavizando o  soluçar das juritis. Tempo de azul e não. Sangram mulungus no ermo  encantado. Os pássaros nostálgicos waldemarianos vão com as asas trêmulas aflando na viração da tarde, modelando nas nuvens figuras mitológicas, enquanto voga no céu, como uma caravela de fogo, o sol do acaso. Suas longas asas retesadas captam a poesia da tarde fugitiva, mas eterna no instante em que foi bela. Os carros de boi, em mós de  atrito, as raízes da terra triturando. Tímidos passos de criança amortecidos em lágrimas de memória e que se perdem nos encantos da noite,  nos segredos da vida e nos mistérios da morte. Ricos cenários para  poetas e prosadores.

Waldênio Porto inicia seu romance quando se cobrem de verde as baraúnas com força descritiva: "A água da chuva escorre encorpada pelas telhas e despenca do beiral irregular, feito cortina líquida. Cava, com estrépito, poças no chão de barro. Juntam-se e engrossam a corrente, frente às casas, descambando barulhenta pelas ladeiras, a caminho do rio."

José Saramago, único escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, mantém um diálogo filosófico entre as  duas personagens principais do Memorial do Convento, sua obra prima, lançando mão de imagens paisagísticas - nuvens, chuva, céu, montes, colinas, moinhos, vento, sol, sombras -: "Vão Blimunda e  Baltasar a caminho de Lisboa, ladeando as colinas onde levantam moinhos, o céu está encoberto, mal saiu o sol logo se escondeu, o vento é do sul que vem, ameaça muita chuva, e Baltasar diz: Se começa a  chover, não teremos onde recolher-nos, depois levanta os olhos para  as nuvens, é uma única placa sombria, cor de ardósias; Se as vontades são nuvens fechadas, quem sabe se não ficarão presas nestas, tão escuras e grossas que nem o próprio sol se vê por trás delas, e Blimunda respondeu: Pudesses tu ver a nuvem fechada que dentro de ti esta  Ou de ti, Ou de mim, pudesse tu vê-la, e saberias que é bem pouco uma nuvem do céu comparada com a nuvem que está dentro do homem".

De Josué Montello, a mesma influência paisagística em Noite sobre Alcântara - "O inverno se despedia. Dentro de mais alguns dias, o período das grandes estiagens, de sol firme, de noite límpidas, e a cidade a refulgir na claridade das manhãs altas ou a recortar na luz do luar os seus sobrados, os seus mirantes, as suas sacadas, os seus  portais de pedra".

Joaquim Cardozo, em Congresso dos Ventos, poema símbolo das vozes da humanidade, reúne na várzea do rio Capibaribe, os mais  ilustres ventos da Terra. Ventos que têm a missão de unir os homens de todos os quadrantes por meio do intercâmbio cultural. Mistral foi  o primeiro a chegar, "com seus cabelos de agulhas e os seus frios dedos finos". Em seguida, Simum, com suas "barbas de areia quente". Todas as ações humanas são atribuídas aos ventos: conversar, dançar, respirar, contar histórias de feitos guerreiros. Encerrado o Congresso, os ventos erguem-se em alto voo e voltam às suas plagas de origem. O que saiu por último foi o vento Aracati, do Ceará: 

Cortou uns talos de chuva

Com eles fez uma flauta

E se foi, tocando e dançando.

Guilherme de Almeida, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, descobre o espírito brincalhão do vento que se diverte com as folhas dançantes e a capacidade consoladora da natureza que mitiga dores e reintegra o homem ao mundo vegetal. Seguindo o conselho do poeta, quando você precisar maldizer as feridas da vida,  vá sentar-se ao banco dessas praças solitárias em que há árvores idosas sob o céu sem fios. E fique ai um tempo longo. E olhe para uma dessas árvores pensando: mas tão perdidamente , que o seu pensamento tome  a forma dessa árvore...

Neve. Montanha. Ventos frios. Céu mutante no imaginário de  Cecília Meireles.

"Um dia, a neve surpreendeu-me na montanha. O céu estava azul, a paisagem estendia-se imensa e tranquila. De repente, as centelhas de neve começaram a luzir daqui, dali, como vagalumes de prata. A neve caía, cada vez mais densa, e logo os telhados e as árvores foram ficando brancos, e o céu perdeu sua cor, não houve mais horizonte, a  paisagem era uma enorme folha de papel com breves linhas e pontinhos negros, tal uma gravura com sucintas indicações de vales,  povoações, estradas...  Os ventos frios do sul!... Amada neve!"

Cesário Verde nos fala de terrenos escorregadios por onde deslizam os laranjas:

O laranjal de folhas negrejantes

(Porque os terrenos são movediços)

Desce em socalcos todos os maciços,

Como uma escadaria de gigantes.

Na paisagística da produção literária é frequente o surgimento de  pedras.

Se pedras tapetes, diríamos que os caminhos da literatura aparecem floridos pela tessitura dos artistas. Amaciando passos ou dificultando o caminhar. Na imaginação criadora dos escritores, o fascínio das pedras. Encontramo-las de todos os tipos e coloridos. Drumonianas que atrapalham o viajante, autofágicas, sonhadoras, severinas molhadas de suor, preciosas, sóis a brilhar ou testemunhas de sangrentos rituais. Pedras título.

Terra cansada de procriar. Pedras molhadas de suor. João Cabral de Melo Netto. Morte e Vida Severina.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na sina:

a de abrandar estas pedras 

suando-se muito em cima,

a de tentar despertar

terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar

algum roçado da cinza.

Pedra que sonha e que faz sonhar, adormecida no eterno sono. E porque a pedra é feliz? O esquecido poeta olindense José Mindello nos  dar a resposta no livro À Sombra das Árvores, prefaciado por Waldemar Lopes. No abandono em que jaz, muda, sombria,

um sonho doce embala o seu mistério...

Dorme, feliz, o Grande Sono - altera-o

embora a voz dos ventos, fugidia...


A alma da Noite, desce lenta e fria...

Desce... Envolve-a em seu manto escuro e etéro

e a pedra sonha... E o espírito sidéreo

da Noite beija-a em vão e a acaricia...


Nada a interrompe em seu torpor silente:

de reviver no Tempo eternamente

podem arder os homens na ânsia imensa...


Que no silêncio augusto do abandono,

jamais despertará do eterno sono

a pedra que é feliz - porque não pensa!

O poeta Austro Costa, nos lembra a Pedra de Bolonha:

Diz-nos Goeth que a pedra de Bolonha,

exposta à luz solar,

tanto os raios lhe furta, e absorve, tanto,

que fica luminosa, e, à noite, há quem suponha,

cheio de espanto,

que ela é um sol a brilhar...

Pedras preciosas. Joaquim Manuel de Macedo, o médico que resolveu ser escritor, enfeita passagens de A Moreninha com a esmeralda e o camafeu. O processo extrativo de diamantes inspira a obra Cascalho de Hebert Sales, membro da Academia Brasileira de Letras.

Pedras títulos. Aquelas que se juntam, se agrupam, num octossílabo perfeito no verso de Marco Pólo Guimarães - "Somos pedras que Se consomem" e que Raimundo Carrero escolheu como título de um de seus mais belos e originais romances cujo tema é o tempo que passa inexorável como nós também passamos, "pedras que se consomem".

Da coletânea A Educação pela Pedra de João Cabral de Melo Netto - os poemas devem ser trabalhados de forma rigorosa e sistemática para obterem a consistência e a resistência de uma pedra. Depuração poética. 

Imagem de pedra, livro de poesias de Lucilo Varejão Filho, membro da Academia Pernambucana de Letras e organizador da coletânea "Os velhos mestres do romance pernambucano".

E a mais preciosa de todas as pedras - octogenária, rubro-negra, coberta de realeza, cansada de homenagem, que num riso largo e festivo se ergue altaneira nas serranias de São José do Belmonte. Dela o  misterioso nascimento de Quaderna - nosso Dom Quixote sertanejo - que pinta e borda em terras secas dos Cariris Velhos da Paraíba do  Norte, nos lajedos e serrotes, no topázio castanho e rude dos prados. Pedra real que será homenageada hoje à tarde neste Festival e amanhã desfilará gloriosamente pelas ruas da cidade.

Minha homenagem final ao professor Manoel Corrêa de Araújo - geógrafo, historiador, economista, antropólogo, escritor com mais de  100 livros e 300 artigos publicados, membro da Academia Pernambucana de Letras e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, recentemente falecido. Seu livro A terra e o homem do  Nordeste, publicado em 1963, foi considerado pela Câmara Brasileira do Livro como uma das 100 melhores publicações do século passado. Leonardo Dantas descreve-o muito bem: "espírito de luta, capacidade de reação, disposição para o trabalho, desejo de conciliação, procura de progresso, de choque de ideias e de realizações". Daquelas personalidades que servem para guiar um povo, para mostrar caminhos. Saudades!

*Amaury de Medeiros, médico, membro da Academia Pernambucana de Letras, ensaísta, colaborador de jornais e revistas científicas.

Conferência de Amaury de Medeiros no II Festival de Literatura de Garanhuns - FLIG, realizado de 5 a 8 de julho de 2007.

Retratos de Garanhuns

Anchieta Gueiros e Givaldo Calado de Freitas

Julho de 2015 - Anchieta Gueiros e Givaldo Calado de Freitas. Sede do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns (IHGCG), Praça Dom Moura, 44.

Retratos do Agreste

Da esquerda para a direita: Paulo Sérgio, Anchieta Gueiros, Cláudio Gonçalves e Orlando Almeida Calado

Julho de 2015 -  Da esquerda para a direita: Paulo Sérgio, Anchieta Gueiros, Cláudio Gonçalves e Orlando Almeida Calado. Sede do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns (IHGCG), Praça Dom Moura, 44.

domingo, 5 de abril de 2026

Jesus Cristo

Jesus Cristo

João Marques* | Garanhuns

Jesus, no seu tempo, era conhecido ou reconhecido por poucos. Não eram todos que acreditavam em suas palavras. As curas é que atraiam, e muitos o tinham apenas como mais um profeta. No meio dos discípulos, dos parentes ou da gente que o cercava, era uma pessoa comum, com algumas características próprias ou diferentes.

Seu rosto era natural, de um hebreu normal. E podia ser olhado à vontade. Sorria, também. Sua mãe, também, era normal. E, na época, ninguém a via como santa, era uma mulher igual às outras.

O homem Jesus era bonito, já pela lucidez que transmitia o rosto. Face larga, olhos azulados, sobrancelhas estendidas e finas, e de um brilho escuro. Cabelos e barba alourados e crescidos, não muito longos, conforme o costume. Um sorriso ameno e constante no rosto, de uma expressão animadora. Como quem está sempre contente. Andava de sandálias rústicas, roupa simples. E gostava de ficar só, a não ser quando estivesse conversando ou falando a muitos. Tratava sua mãe como Senhora... seu pai, com uma palavra de tratamento, sem tradução, que significava a pessoa a quem se deve respeito e obediência... Irmãos e discípulos pelo nome, muitas vezes pelo nome e o sobrenome. Era costume. E, apesar de homem simples, tinha gestos solenes, tratos amáveis.

Não repetia o que havia dito, ou o mesmo assunto, preferia dizer com outras palavras, como se falasse de algo novo. Sua fala era muito viva, vibrante, daí ser sempre superior nos diálogos. Numa conversa, ninguém conseguia contrariá-lo. Inclusive, os governadores e os sacerdotes não tiveram condição de conversar muito tempo. Não permitia ser tratado como Senhor, ou de forma diferente, com reservas. Recolhia-se da presença de todos, quando ia orar. E aos olhos de alguns, parecia outra pessoa, tal a atitude de paz e transfiguração do rosto. Quando reapareceu aos seus apóstolos, ressuscitado do corpo crucificado, a aparência não pôde ser reconhecida por todos, e nem todos o viam direito... Em espírito, o seu rosto ficou mais rejuvenescido, e de uma luz tênue e atrativa. É o que sei, pelo pensamento e pela graça de Deus.

*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor.  Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro. João Marques dos Santos desencarnou em 22 de setembro de 2024.

Chico Lorota e Manoel Gato

Severino de Albuquerque Em fevereiro de 1981 o jornal O Monitor publicava - Aconteceu na década de 1920. Francisco de Amélia, que atendia t...