segunda-feira, 4 de agosto de 2025

A trave dos nossos olhos

Dr. Aurélio Muniz Freire* Garanhuns, 08/09/1984

Nós espíritas, não nos apresentamos  como exemplos de criaturas, ou modelos de virtudes ambulantes. Não. Conhecemos nossas deficiências, nossas faltas. Por sermos assim carentes de elevação espiritual, em que pese o nosso esforço de ascensão, é que somos espíritas ou  cristãos. A propósito, perguntamos: porventura o Cristianismo, o Espiritismo, ou qualquer outra doutrina espiritualista estaria sendo propagada, sendo levada ao nosso século, à nossa gente, se fossem tais correntes do pensamento humano, esperar por criaturas já escoimadas de vícios, de imperfeições, de invirtudes?   De certo que não. Muitas vezes, meu Irmão, as forças do Alto, não encontrando em nosso meio instrumentos como os desejados por você (simplesmente porque inexistem), utilizam-se de vasos quebrados, rachados, defeituosos, como nós, para a difusão e implantação de seus desígnios.

Meu Amigo, a idade biológica nem sempre corresponde à psicológica. Podemos ser velhos no corpo e infantes no entendimento. De igual modo, às vezes se é jovem nos anos, mas já amadurecidos pela razão. Estas verdades encontram maior ressonância, desde que cotejadas à luz de psicologia espírita, diante da lei das vidas sucessivas, a reencarnação.

Veja como você foi útil em nos escrevendo. Motivou nosso esforço a estes esclarecimentos. Sua carta é uma relíquia. Não a rasgarei. Não a destruirei. Futuramente nos conheceremos, ou melhor, você se identificará e falaremos sobre as suas palavras, que espalham o retrato de sua espiritualidade atual. Com o andar do tempo ("tempus minister Dei"), com o amadurecer do seu espírito, você compreenderá no futuro, a criança que ainda habitava em você, ensaiando os primeiros passos, tentando compreender a realidade espiritual da qual se achava bem distante...

Nada tenho a desculpar-lhe. A  Doutrina Espírita nos ensina uma filosofia profunda, mais racional, científica, dos ensinamentos evangélicos.

Deus é amor e sua presença se faz sentir tanto na flor que perfuma o ar, quanto no pântano que a alimenta...

Mostra-se Ele no sol que acende os dias, nas estrelas que adornam o  firmamento das noites, e nos pedregulhos que escondem as fontes...

Sua beleza se estampa, falando na  policromia dos vergéis, no multicolorido das campanhas, e nas  forças imprestáveis dos monturos...

Ele caminha nos sóis que iluminam os mundos, nas estradas luminosas das galáxias, habitando também nas vielas escuras da nossa Terra...

Ele viaja nos caminhos dos nossos rios, no murmúrio de todas as ondas e na poluição do nosso tempo...

Ele excursionava no canto mavioso das aves, na suavidade de todas as vozes, no terno sorrir das crianças, e nas  lágrimas dos que choram a incompreensão dos homens...

Deus, meu Irmão, é esta presença que nos ama, na imperfeição e na  insignificância do que somos, porque, habitando a sujidade dos rios imensos que sustentam pelo sangue, as nossas vidas, ao mesmo tempo. Ele é a luz a brilhar na constelação dos nossos espíritos...

AINDA O CUIDADO NOS JULGAMENTOS:

"... És indesculpável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas; porque no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as  próprias coisas que condenas". (Romanos, 2:1).

UMA GRANDE LIÇÃO PARA OS "CRISTÃOS":

"O gentio Mahatma Gandhi, não permitindo a morte de um só homem para libertar a Índia, compreendia mil vezes melhor o espírito do Cristo do  que esses chamados "cristãos" razão por que declarava a todos os missionários do ocidente que procuravam convertê-lo ao Cristianismo: "Aceito o  Cristo e seu Evangelho - não aceito o vosso Cristianismo." ("Apud" O Ser mão da Montanha, de Huberto Rohden).

*Jurista e escritor.

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