João Marques dos Santos, poeta e ensaísta, dentre outros títulos, de o Hino de Garanhuns (letra e música), brinda-nos agora com "A Carta", abordagem filosófico/espiritualista, em forma de diálogos travados entre o Discípulo e Altérego, personagens imaginados pelo autor. Trata-se de uma busca às primeiras e últimas causas no plano da razão humana.
"Todas as coisas são movimento - diz o autor, no capítulo inicial -, em todos os sentidos e em cada corpo das possibilidades da existência".
A assertiva remete-nos ao filósofo grego Aristóteles que, na antiguidade clássica, frente à pergunta por que as coisas se movem?, cria a teoria do conhecimento.
ESSÊNCIA
João Marques fala da "essência", como o que "há de mais interior nas coisas da criação". A causa, ou princípio seria o Espírito (um todo, único) de onde emanam as coisas e as criaturas. Estas, ao contrário Daquele (criador ou Espírito) estão em constante evolução e susceptíveis às oscilações dos elementos e ondas exteriores.
A carta, de João Marques, compõe-se, além do preâmbulo, dos capítulos O Princípio; A Essência; A Criação; O Espírito; O Homem. Este, criatura, que mais se aproxima do criador, por isso mesmo, complexo e contraditório, atrai para si todas as atenções, ocupando maior parte do tempo(diálogos), na manhã, na tarde e na noite.
Nascer, crescer, amadurecer e se transformar. São as fases e etapas da vida de todos os seres, inclusive o homem. Os ciclos próprios na natureza, refletidos na montagem e desmontagem do tempo; tempo cronológico e o tempo cultural, este último, exclusividade nossa, do homem. Daí as manhãs, tardes e noites, qual metamorfose natural como medida de todas as coisas, capaz de propiciar as manifestações de alegria e tristeza, específicas do terreno humano, na manutenção da dúvida e da contradição.
RAZÃO DE VIVER
Nessa medição, surge a manhã irradiando aurora, alegria e razão de viver/renascer; o canto do galo e da passarada, sinfonia natural de renovação/transformação, permanência. Alimento da alma e dos sentidos.
Perceber, discernir e escolher. Atributos da razão humana. Nesse campo, como diria Dostoiévski, "entre a terra e as estrelas, tudo é possível". Terreno onde se travam pelejas diversas e permanentes sob o impulso do ódio, da avareza, da ambição, da traição, da disputa, do amor.
Todos esses elementos são abarcados nos diálogos entre o Discípulo e Altérego, numa permanente busca de superação/transformação/encontro.
Amor. Atributo maior e próprio à espiritualidade, essencialidade com que o homem pode e deve buscar culminâncias da existência, das coisas, da razão.
"Ser ou não - propõe o autor de A Carta -, para em seguida afirmar "que tudo isto que está sendo iluminado pela luz tem o Espírito da vida de ser e da razão de transformar. E este mesmo Espírito das coisas, em sua dispersão, está em mim, criando este eu. E minha expressão é muito grave, quando digo eu sou. O eu é a consciência de que existo. E existo em mim mesmo, por uma unidade. O eu é profundo e busca constantemente a sua razão de ser".
Como não poderia deixar de ser, é tratando do capítulo O Homem que o autor transita com leveza conduzido pela razão e a faculdade de entender a admitir as transformações, no tempo e espaço. Amor. Insiste o autor oferecendo a sua visão de que "o amor não é absolutamente uma ideia, mas uma forma de energia formulada pela inteligência e fundamento da criação."
Para em seguida arrematar: "O amor e o ódio são diferentes. Enquanto o ódio é acidental e não e compatível com a criação, o amor é manifestação superior e é essencialmente construtível".
Assim, João Marques entende que o amor é manifestação superior, bafejado pelo criador às criaturas. Cabe a estas, por fim, exercitá-lo na plenitude, caminho único que leva o homem à essencialidade de si mesmo.
*Manoel Neto Teixeira, membro da Academia Olindense de Letras, é jornalista e professor da Aesga.
*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, poeta, contista, cronista e compositor. Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município, foi presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Manteve, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro. João Marques desencarnou em 22 de setembro de 2024.

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