segunda-feira, 21 de julho de 2025

Revelações - Parte VII

Luzinette Laporte de Carvalho

Luzinette Laporte de Carvalho* 

Como brasas sob a cinza, resta-me a certeza viva do bem que me queres, de que precisas de mim. Ou não seria possível viver contigo.

Quando te falo de um relacionamento diferente, sem, obrigatoriamente, a comunhão dos corpos, teimas em não me atenderes. Reincides, rebelas-te. Que posso fazer? Saber e deixar que descubras o que te ofereço. Saber e calar.

Caminhei / caminho contigo. Há a alegria, centelha de dor avesso. Há as indagações, dentro de mim: por que me buscaste. Não creio que haja sido mera curiosidade, como o entomologista se aproxima do  inseto diferente que o atrai. Ou sem a visão correta do  valor que tenho, como pessoa humana que sou. Não quero, não posso crer.

Quando leio o que escreves, ouço a música da tua alma, tudo o que me  ofereceste ou endereçaste. E me  pergunto: por que? Para que? O que te fez caminhar em  minha direção, desviando-te dos teus caminhos de  sempre, esforçando-se por arrancar-me do meu covil ou ninho ou deserto ou cume?

Ajoelho-me e rezo. Depois, sento-me  e medito. Tenho que descobrir o meu caminho. À noite, eu  me prostarei, com o rosto em terra, para adorar. Será, como sempre, uma adoração sem limites. Não direi palavra ao que é Presença. Deixarei desfilar diante dEle a procissão inteira dos meus fantasmas e das minhas visões e descobertas. Não pedirei nada antes de adorar, agradecer, louvar e entregar-me. Não terei senão que  silenciar. Só. Depois, começarei com a voz cheia de  lágrimas e de confiança, a pedir tudo. Para trás ficarão os desejos e os sonhos: meu pão de cada dia. E também todas as pretensões.

Irei a Ele, imóvel, num deslocamento / posicionamento do meu ser. Estarei dEle contigo e  lhe direi: este é aquele que amo e não amo e amo. O que  não me conhece e a quem não conheço. E que, no  entanto, me faz conhecer-me e se dá a conhecer. Que  me conhece e não me descobre. Ele me  agride e me fere, sem perceber. Pela sua visão diversa da vida. Diversas da minha.

Quando a mim, sou chaga viva, aqui estou. (Tu me vês melhor do que eu mesma... Sabes melhor). Dolorosa chaga sangrenta... É preciso que a cauterizes, para não contaminar. Só tu podes fazer isto.

Conheces meu estase e meu êxtase, tem piedade de mim, meu inteiro jogado como um barco sobre vagalhões. Vê como chega à minha boca a golfada de fel.

Amor meu, esta é a minha oração. Por que te chamo amor? Por qual outro nome te chamaria? Estou em conflito, não sabes? E o horror me possui. Sou tragada no sorvedouro de algo que jamais sentira.

Não é a dor, esta eu conheço. É algo pior, algo que  me obriga a vomitar e não me alivia. Ondas e ondas de  dolorosos espasmos. Sem expelir o que me faz mal.

Sabes a natureza de fogo que sou. Muito mais que  um vulcão: sou a lava pura. Ou melhor, sou mais que a lava, sou a alma do fogo, o foco do fogo. (E terna e leve como o fio pequenino de erva à beira do lago, refrescante mais que a água pura, doce mais que a brisa, sem perder minha natureza de fogo).

Acho que isto é o amor. O amor não pode / não deve ser um sentimento de bem-aventurança. É como o descreve o Poeta: "puro Amor com força crua / Que os corações humanos tanto obriga... (...) queres, áspero e  tirano / Tuas aras banhar em sangue humano." É isto. Por isso sou chaga, mel, fogo. Brisa, flor, erva. Acho que te amo sim... (E o sorvedouro? E o sentimento que não encontra alívio?).

Ser homem é ser conflito.

A este sentimento terrível que me possui, chamarei angústia: nova experiência antiga, pois a conheci sem saber nomeá-la.

É como o bater de todas as portas, a tortura da alma ante o ignorado-esperado, o inesperado, o não-imaginado. Aprendizagem da realidade nua  e crua, gerando o ser para outro nível de vida. Tortura íntima bem mais forte do que se possa dizer.

Dor terrível de não saber a resposta, de não saber ao menos se existe a resposta para este grito de alma. tentação da fuga, do largar tudo e se adentrar pela vida, sozinha. (Em busca de outro horror?).

Único antídoto contra a loucura ou desespero: a demanda contínua, o contínuo caminhar por uma sombria noite que oculta a luz. Caminhar pela mais densa treva, na luz. Não parar. Até chegar à luz que me espera.

*Professora e escritora / Garanhuns ano 2000.

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