A mala velha cai. Vitrúvio no seu canto de dormir, grita porra, outra vez... Amarra essa mala, Badoque. Essa porra só dá pra cair perto de mim. O outro responde, falando por cima dos ombros magros, já amarrei, amarrei, é porque tu te encostas nesse treco penso, cheio de bagunça. Outros ao redor, no socavão, batem nas panelas no chão, sobre o fogo feito entre pequenas pedras. Um deles assa um pedaço de carne seca, que furtou no açougue. A fumaça da lenha meio molhada turva o ambiente. Há de tudo, espirro, tosse, arroto, peido, o ganido de um cachorro faminto, sentindo o cheiro da carne nas brasas. A noite é terrível. Deitam-se os homens pelo chão e roncam, de madrugada, como roncam os porcos.
Chega a claridade, levantam-se todos. Por mais um dia, saem, dispersos, no enfrentamento da guerra da sobrevivência. Só retornam, quando não houve mais sol. Vitrúvio havia arranjado serviço de 4 dias. Ganhou dinheiro, puxando lama das casas e colocando os troços no sol. Tinham sido 5 dias de muita chuva, inundando ruas e casas. Agora, Vitrúvio não precisa sair como os outros precisam. Sai para perto, andando devagar. Praça da frente, o personagem, desocupado, se encosta num tronco. Senta-se e espalha as pernas no chão. O tronco velho, abandonado, desolado da vida. Tanto tempo, que parece monumento ou entulho velho. Pessoas mais idosas disseram que foi uma grande árvore no meio da praça. Vitrúvio escutou há dias a história, de passagem. Escutou e passou a conviver com o tronco, juntando-se a ele nas manhãs em que lhe restava algum dinheiro da enchente. Considerou os dois, ele e o tronco mendigos encostados, passando o tempo de cada um. E, encostado ao tronco de costas também, fica a pensar. Vitrúvio costuma lembrar do que foi, e pensar no que certamente não podia ser mais.
A ÁRVORE
Velho e sem ninguém. Há se... foi gente vistosa, igual à folhagem verde e exuberante da árvore. Uma boa árvore certamente. Agora, com o tronco caído sobre si próprio. A sombra antes cobrindo em volta extenso chão. E a gente cansada do sol quente vinha descansar sob os seus galhos. Os seus braços de amparo. Flores, frutos e sombra. O vento movendo as folhas numa linguagem gestual. Agora, solitário e abandonado o tronco. Vitrúvio olha demoradamente e acha tudo muito parecido. A situação dos dois. Solidão assim, concorda, é melhor até que a convivência no socavão. Gente sem sentimento, com quem convive. É o jeito. Se pudesse, plantaria outra árvore companheira, ao lado do tronco. É viver então do que resta. Se não tem mais nada, é ter o sentimento da saudade ao menos. Dele e da árvore extinta. Do passado é o que resta, a saudade e o tronco sem fala.
Não vinha dormindo bem. Como sempre. Encostado, agora, bem encostado, inteiramente entregue à realidade e ao cansaço. Nesse dia, o sol já alto, e o homem entregue, em profundo descanso, ao abrigo do tronco. Daí, vem um menino, passando perto e tropeça nos pés de Vitrúvio. Ele olha repentinamente a criança correndo, e não se importa. Recolhe as pernas. Não se lembra de tê-las espalhado tanto. E por quanto tempo. Levanta-se, ligeiro, e, sem olhar para trás, vai e fala e faz gestos para as pessoas que passam. Vejam! o tronco está vivo. Está brotando outra vez a árvore... olhem os rebentos verdes... vai florar e ter galhos e folhas como antigamente. E fala, com grande alegria na voz e nos braços, florescidos. Parece querer repartir com todos a sua alegria. O tronco. E, com ele há de viver feliz, como o que volta. Os transeuntes, estranhos, estes passam de largo. Não podem entender a linguagem de um homem meio tronco, meio folhas mortas, sacudidas pela vida. E, ao vento, todos se vão.
*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor. Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro.

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