Gostaria que me ajudasses. Não é sem uma intensa dor que eu confesso que meu amor por ti está em perigo. Dói o conflito em mim. (Em ti).
Descobri mais. Descobri que a vida é vivida toda em cada momento. De repente, as coisas acontecem.
Tu nem imaginavas que pudessem acontecer. Vais determinado a x. E chegam y + a + b... Toda tua fórmula foi alterada, totalmente.
Saíste para fugir, e eis que caíste na armadilha. Aliás, não é armadilha: é a vida. Caímos súbito na realidade.
Era isto o que querias? Todo teu roteiro traçado. Toda tua fórmula estruturada. Todo teu planejamento organizado. E a pretensão da fuga.
Aconteceu comigo. Era o que eu pretendia? Não. Eu estava em fuga. Fui... apreendida. E fiz os gestos que o amor ditava. Disse as palavras que não sonhara pronunciar.
Quando fora mais eu-mesma? Quando fizera minha vontade ou quando fiz tudo aquilo de que estava fugindo? Quando, onde era eu-mesma?
De querer e não querer somos feitos. De dor e de beleza.
Sinto-me liberta dos enredados caminhos em que me lança a vida. Liberta, retomo meu roteiro só e livre. Porém, diante de mim, tu. Teu constante chamado.
Teu aliciante apelo. Tua pergunta. Teu assalto. E que fazer, amado? Eu te ouvi e escutei. E há o mais, o muito mais.
Tento parar um pouco e tomar fôlego. A alma sofrendo a violência, a tensão, a pressão da dor, da alegria, do não-saber. Sofrendo a pressão terrível das perguntas de angústia. Pedaço de espiral estraçalhada? Gancho retorcido? Dúvida? Timidez? (As interrogações todas: pressão violenta na alma). É preciso força para não perder o equilíbrio. E os alimentos: pão, vinho, óleo. Resposta à fome, à sede. À chaga.
Passa tudo que me sucedeu ao te encontrar, como um turbilhão: tal qual sucedeu, um momento e tudo acontece.
Apenas alguns momentos. Se eu te disser que recebi tudo em paz e alegria? Em dor e luta? Se eu te contar que eu resisti até o último momento?
Tudo que ocorreu naquela hora e meia. Pensas que sei dizer? Que posso? Que terei condições?
Eis a vida: alguns momentos e tudo se decide. Como carregá-la assim como outra Protis (a jovem filha de Naan, rei de Marselha) e entregá-la ao escolhido? Ela carregava uma taça plena de vinho espumante. Aquele a quem e entregasse, seria o escolhido, o amado.
Minha taça, porém, não esta cheia de vinho. Está plena de vida. Vivida naqueles e nestes momentos de intensidade e doçura, beleza e dor, amargura e alegria, paz e bênção, maldições e rejeições. De vida. Momentos, instantes, átimos de eternidade. A quem entregá-la? Quem a ousaria beber? Tomá-la nas duas mãos - para não se perder uma só gota: porque uma gota pode representar o essencial. E sorvê-la, vagarosamente. Descobriria então o amargo, o travo. Os (des) gostos todos. Quem ousaria sorvê-la?
Não, não sei contar-te aquele momento. Porque não vivo um dia que seja, de uma vez. Vivo um minuto, e passa. Um segundo, e foge. Cotas de morte e eternidade. Abrem-se e fecham-se em relâmpagos. E nada mais se vê.
"Flashes" desencadeiam-se em mim a ponto de ficar iluminada. A ponto de me sentir desvendada na alma, sem um só recanto íntimo. E no entanto, tudo reservado, guardado por solenes cães-de-guarda, capazes de ouvir o passo cuidadoso do que chega, a milhas. Arde um fogo à entrada e, embuçado, o "eu" guarda o "eu". Em permanente vigília. Sopram ventos e há estrelas no céu.
Amo a noite que desvenda os sonhos no sono. Que guarda e abriga a forasteiro das manhãs que sou, por força de leis de fora. Noturna, faço-me matinal. E plenificada de paz e dor, dirijo meus passos para o ventre claro e puro da noite.
Asseguro-te: a beleza é tanta no seio denso da noite que a revelação se constela de luzes. E dói tanta harmonia.
Aqui estou tentando dizer, oferecendo-te a taça. Para que a tomes um pouco em tuas mãos enquanto componho minhas vestes e meus cabelos. Perdoa-me, foste tu que provocaste o encontro, que te aproximaste de mim. Obrigado pela ajuda e por teres cuidado de que nenhuma gota caísse.
Alguém me aguarda. Ouve meu caminhar solene e cuidadoso. Sabe o cântico da minha alma. Conhece as amplas dobras de minhas vestes e o contorno de todas as minhas formas. Desde que fui tecida no seio de minha mãe.
Se estiveres de acordo, vem comigo, juntos lhe entregaremos a taça e serás, tu também, teu conviva.
*Escritora e professora / Garanhuns, PE - 2000.

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