Resumo. A proposta deste artigo é fazer uma reflexão epistemológica da Nova História Cultural, com a intenção de analisar os paradigmas teórico-metodológicos dessa nova tendência historiográfica, apresentando os seus conceitos sobre as fontes, metodologia e finalidades na produção do conhecimento histórico.
Na primeira metade do século XX a produção do conhecimento histórico passa por uma série de transformações paradigmáticas consideráveis. Essas mudanças provocam a reflexão sobre o conceito de fontes, metodologia e a finalidade desta ciência.
A noção de objetos, problemas e abordagens são ampliadas, concomitante, a aproximação com as demais ciências como a antropologia, a psicologia, a linguista, a arqueologia, entre outras.
A História consolida-se como disciplina cientifica no século XIX, mas as mudanças mais representativas em sua historiografia decorrem no século XX, a partir da organização da Escola dos Annales, com Marc Bloch e Lucien Febre, esse novo pensamento historiográfico começa a romper com as teorias conceituais e metodológicas positivistas e a historia política tradicional, tendo como uma das suas propostas a história problema.
Esse posicionamento da escola dos Annales foi criticada pelos historiadores marxistas, que consideravam que os Annales haviam começado com uma historia socialista e passaram a sintonizar com o liberalismo clássico, postura ambígua, pois apesar de reconheceram a importância de Marx, criticavam o reducionismo econômico e o materialismo histórico.
Na 3ª geração dos Annales, ganha força a abordagem de uma História das Mentalidades, novamente os adeptos desse conceito e metodologia sofrem pesadas criticas, pois para alguns historiadores realizariam um estudo de temas extremamente limitados, fragmentando excessivamente a história.
A História das Mentalidades inspira e influência a 4ª geração dos Annales, essa nova corrente surgirá com um novo conceito teórico-historiográfico, a Nova História Cultural, em contraposição aos paradigmas da história intelectual.
Essa nova concepção tem sua inspiração precursores da história cultural como Jacob Burckhardt, Leopold Von Ranke e Johann Gustav Dorysen.
A Nova História Cultural traz uma nova problemática metodológica, o enfoque na analise dos conceitos de poder, política, economia e sociedade passam a ser analisados a partir das representações sociais e coletivas, dos imaginários sociais, da memória individual ou coletiva e das mentalidades. O filosofo francês Pierre Bourdieu corroborando com esse pensamento ressaltou que é no campo simbólico que os sujeitos podem atribuir as relações sociais, na ação política humana no tempo e os sentimentos, emoções, formas de pensar ou idiossincrasias dos agentes, ou seja, o simbolismo e a memória são objetos de estudos que podem ampliar a visão dos eventos históricos e encontrar novas respostas na revisitação ao passado.
Nesse âmbito de renovação teórico-metodológicas da Nova História Cultural, a análise se direciona para as representações, o simbólico, o cultural e social, e apesar de algumas considerações que haveria um reducionismo, essa redução de observação contribui para a compreensão de situações que de algum modo poderia passar despercebido pelos historiadores.
O que está em debate nesse contexto é o direcionamento da observação de outras fontes e novas abordagens, onde a História passa a ter um diálogo interdisciplinar, valorizando a produção cultural e entre elas a narrativa que volta a fazer parte das discussões históricas.
Repetindo a frase do historiador Jacques le Goff quando afirmou ser a história uma forma de atividade simultaneamente poética, cientifica e filosófica, essa afirmação nos remete a refletir sobre as implicações da produção do conhecimento histórico e inevitavelmente a possibilidade de estudos de novas fontes, a partir da observação da produção cultural. Para ilustrar esse novo olhar teórico-metodológico, achei adequado destacar uma das passagens do livro de Guimarães Rosa, Manuelzão e Miguilim:
Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...
E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
- Olha, agora!
Miguilim olhou. Não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância.
A nova História Cultural como na história de Miguilim, busca contribuir para que os historiadores comecem a enxergar os atos, ritos, imagens do real e do imaginário, os grãozinhos de areia cultural que podem explicar toda uma estrutura e conjuntura.
Enquanto os teóricos positivistas buscaram encontrar uma verdade cartesiana no bojo da historiografia, direcionando a história como uma ciência universal, que pode ser representada pela miopia de Miguilim, os historiadores e filósofos da Nova História Cultural observaram que são fortes as ações produzidas pelo individuo no tempo e no espaço, e que constituem experiências vividas, cujo legado se transformou em tradição, memória e narrativa, abrindo um leque de fatores variados que contribuem para a investigação da verdade histórica, uma delas a ascensão do diálogo com as outras ciências sociais na explicação dos fenômenos sociais. “Os comportamentos, sentimentos, as imagens, coloca em evidência a importância do simbólico e do inconsciente como imprescindíveis na explicação do universo humano” (Pesavento).
Reportando a outra importante contribuição da construção do conhecimento histórico nessa visão teórico-metodológica das fontes documentais, o filosofo Paul Ricoeur destacou a aproximação entre as narrativas literárias e a história, considerando que esse diálogo proporciona novas leituras sobre o passando e sobre a verdade, dando margem a um conhecimento problematizado, múltiplo e mutável.
Observando por esse viés a literatura é compreendida como um documento para o historiador como reconstrução do fato histórico, como fonte de descobrir vestígios ocultos que estão esquecidos na memória da sociedade e que precisam ser revisitados. Para ilustramos o mérito da literatura como fonte de pesquisa, recorremos a umas da passagem da obra A Poética Clássica de Aristóteles:
“Não é em métrica ou não que diferem o historiador e o poeta: A obra de Heródoto podia ser metrificada, não seria menos uma História com o metro que sem ele, a diferença está em que um narra acontecimentos e o outro, fatos que podiam acontecer”.
O historiador Roger Chartier adepto do diálogo da literatura com a história, esclarece a diferença entre história e ficção, mas confirma a importância da literatura na representação de uma ocorrência no tempo, através do discurso da realidade:
“Entre história e ficção, a distinção parece clara e resolvida se aceitar que em todas as suas formas (místicas, literárias, metafóricas), a ficção é um discurso que informa o real, mas não pretende representá-lo, nem aborda-se nele. Enquanto a história pretende dar uma representação adequada da realidade que foi e já não é. Nesse sentido o real, a ficção é ao mesmo tempo objeto e fiador do discurso da história”.
Essa perspectiva de fontes traz a possibilidade de recomposição também de historias de vidas comuns, em todas as esferas da sociedade, através de elementos como já frisamos, o imaginário, a representação, a sensibilidade e a memória, contribuindo para organização de fontes, análise de fontes e interpretação.
O imaginário comportará as crenças, mitos, ideologias, valores, construindo identidades e exclusões, apontando semelhanças e diferenças sociais, produzindo a coesão ou o conflito. O historiador italiano Ginzburg considera que a memória de um individuo comum pode ser investigada como representação de um microcosmo de uma camada social em um determinado período histórico, essa memória revelará uma grande variedade de fenômenos referentes à subjetividade do agente histórico em seu tempo e seu espaço.
Essa visão tem mudado as concepções dos historiadores de acontecimentos políticos que passaram a se interessarem pela cultura política, redirecionando suas análises e interpretações de antigas questões sob a perspectiva da Nova História Cultural, os novos estudos que passou a ser chamada por muitos historiadores com a micro-história, embora partindo de temas como a cultura da pobreza, a cultura do medo, a cultura das armas, mostraram que novas respostas foram encontradas a partir das fontes até então ignoradas, não perdendo a história a percepção de contextualidade e seu pensamento crítico, mas organizada sem o domínio conceitual da mecânica do processo histórico, o etnocentrismo.
Essa tendência se fortalece nos 90 quando ocorre um deslocamento gradual dos historiadores da Nova História Cultural, aos poucos esses historiadores abandonam a alta cultura e passavam a incluir em seus estudos a cultura cotidiana, investigando costumes, valores e modo de vida como subsídios para interpretação dos fatos históricos. A história é chamada a reformular seus objetos, referenciais e princípios de inteligibilidade. O olhar histórico não poderia desconsiderar essa nova vertente do encontro, marcada pelas interações e encontros de diferentes culturas, evitando um discurso homogeneizante. Desta forma, o objeto (fonte documental), não poderia de relegar qualquer objeto cultura produzido e os processos que envolveram a produção e difusão cultural. Ginzburg em seu importante artigo intitulado “O Inquisidor como antropólogo” (1991), esclarece o trabalho das mediações culturais, através de três polos dialógicos a serem considerados: o historiador, o inquisidor e o réu acusado. Os diálogos mostraram os aspectos discursivos e simbólicos da vida social, isso implica na observação das representações, o diálogo entre linhas entre os agentes históricos, receptores e produtores de cultura.
O historiador inglês Thompson chamou a atenção para essas novas questões do imaginário e das representações em sua obra “A Formação da Classe Operária Inglesa”, numa linguagem metafórica analisa a questão do teatro do poder:
“Os donos do poder representam seu teatro de majestade, superstição, poder, riqueza e justiça sublime. Os pobres encenam seu contra teatro, ocupando o cenário das ruas, dos mercados e empregando o simbolismo do protesto e do ridículo”.
Por esse prisma essa abordagem investiga a cultura e a sociedade em diferentes aspectos não só do ponto de vista do poder instituído, mas ampliando as lentes do microscópio para enxergar os aspectos antropológico-sociológicos, numa perspectiva do popular, não oficial, uma história vista de baixo, resgatando costumes, símbolos, modos de resistências e memórias.
A história vista de baixo implica aos historiadores ir além da aparência e buscar a outras camadas de sentido que estão subjacentes ao documento histórico. A produção cultural possui em seu contexto a sua historicidade, cabendo ao historiador apropriar-se dos significados literários, sociológicos, antropológicos, artísticos, iconográficos, entre outros, os quais através dos símbolos, imagens e ficcionalidade poderão enxergar na história aquilo que não conseguiram ver, tendo acesso a um clima de uma época, os pensamentos, os valores, as ideias, os medos e os sonhos, resultado das relações sociais e refletida na produção cultural, fonte para novos questionamentos e diferentes reflexões das questões históricas.
O paradigma teórico-metodológico da Nova História Cultural provoca a reflexão na relação com as fontes e o fazer história, gerando uma necessidade de formular novos problemas e a perspectiva da historiografia sob um olhar voltado para a produção cultural e sua simbologia e subjetividade.
Para Benjamin, articular o passado historicamente “significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela lampeja num instante de perigo”. (BENJAMIN, Walter. 1992 p.160). O perigo está aí, bate à porta. Narrar a história não pode ser mais a tranquila tarefa do historiógrafo que enfileira acontecimentos históricos cronologicamente “como as contas de um rosário”, essa está se desmanchando tijolo por tijolo. Contar a história passa a ser um ato profundamente analítico. O historiador tem a tarefa de ser aquele que dá conta de pequenos e grandes acontecimentos, esse seria o modelo do historiador apresentado por Walter Benjamin.
O Filósofo e historiador Michel Zaidan Filho, reforça esse pensamento ao destacar que “a história é vida e não um cadáver embalsamado para contemplação de eruditos. A história é o domínio dos possíveis, da virtualidade, daquilo que ainda não é, mas pode ser”. (Ensaios de Teoria da História, pág.49).
Por ultimo, considerando as limitações deste artigo, entendemos que seu aprofundamento se encaminha para reflexão das questões ligadas a essa nova concepção de historiografia, bem como o tratamento das questões documentais, da memória, dos signos, da narrativas e de suas subjetividades, as quais deixou como uma reflexão um trecho da musica Canção para a Unidade da América de Pablo Milanés:
E quem garante que a História
É Carroça abandona
Numa beira de estrada
Ou numa estação inglória.
A história é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente todo aquele que a negue.
CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.
GRAMSCI, Antônio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, SP: Unicamp, 2003.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & história cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
ZAIDAN Filho, Michel. Ensaios de Teoria da História. (Coletânea de artigos produzidos pelas alunas monitoras da disciplina Teoria da História) Recife, PE - Neepd-UFPE, Recife, 2017.
ZAIDAN Filho, Michel. Reflexões sobre a História. Recife, PE Neepd-UFPE, Recife, 2017.
*Historiador, escritor e professor.
Foto: José Cláudio Gonçalves de Lima

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