segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Quando os narcisistas berram


José Alexandre Saraiva*

O sufrágio universal se materializa no ato simples e secreto de votar. É um direito de escolha política conferido a todos os cidadãos. Podemos dizer que a soberania do voto livre é um ato solene de fazer a democracia triunfar, porque, por meio dele, os políticos ora são legitimados no poder, ora dele são afastados. Em 1863, Abraham Lincoln encerrou o seu mais famoso discurso sobre democracia (Discurso de Gettysburg) com esta célebre frase: “Que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra”.

Por irônica coincidência, no mesmo país de Abraham Lincoln, que até hoje ostenta a mais sólida democracia do mundo, seu atual presidente revela-se um sociopata terrivelmente apegado ao poder. Não admite que a vontade popular o retire do trono. Na iminência de uma derrota histórica, “ordena” nas redes sociais que parem a contagem dos votos nos estados em que as urnas lhe são desfavoráveis, incluindo a Pensilvânia, berço do constitucionalismo moderno, sob o argumento falacioso de fraude no sistema eleitoral. Tomado de fúria, judicializa a eleição e chama a imprensa para berrar aos quatro ventos que a oposição é uma gentalha que age com ódio e ardis para roubar-lhe votos! O despautério foi tão notório que as principais redes de televisão daquele país cortaram a transmissão. Afinal, quando os narcisistas berram, só a eles interessam os ecos. Assim era Narciso. Preservou-se o túmulo de Lincohn! Ele merece.

Ainda sobre o câncer do poder, em post recente, falei de Mafídia, a mulher medonha que mandava e desmandava numa repartição pública. Uma história aos pés de Fausto. Autocrática, perversa e vaidosa, perseguia quem a contrariasse e comparava opositores a insetos. Um dia ela perdeu o poder depois de se desentender com o chefe dos chefes e enlouqueceu. De sua janela, viu pela primeira vez o sol se pondo e ordenou-lhe que ali permanecesse. Em seguida, determinou que a beijasse e a conduzisse. Mas já era noite. Cortinas encerram seu devaneio! Por obra de Deus, ainda vê nos confins da escuridão o cintilar de um vagalume. Amarga-lhe saber que, como as estrelas, aquele inseto tem luz própria. E que ninguém poderá usurpar essa dádiva dele.

*Advogado, escritor e músico.

Foto: Abraham Lincoln

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