terça-feira, 8 de agosto de 2023

A conservação do grito-gesto


Cyl Gallindo

POEMA II

(Aos últimos recém-nascidos)

Toma criança um pedaço do meu grito

e te espraia na amplidão desta manhã,

vai plantá-lo por todos os recantos da carne viva

que inevitavelmente a noite te perseguirá.


Leva-o, criança: eu já estou morto. Fui retido

nas orlas de olhares-tumba, enfeitados

de medalhas, de emblemas, de condecorados...


Este grito tem a essência da Liberdade,

que foge da liberdade-mortuária. E sempre foge

de quem limita a voz, o gesto e a coragem.


Vai criança sempre inevitavelmente vai

não deixes nunca besouro algum

morder a vidraça dos teus olhos:

A morte involuntária não é liberdade


Como, por que e quando somos o centro vital?

Não vamos demonstrar segredos

mas participar dos segredos

nas possíveis engrenagens de todo o sistema astral!


Vai criança sempre inevitavelmente vai

aprende a colocar o verbo

na plataforma polida

para viajarem juntos

nos confins da liberdade.


Vai criança sempre inevitavelmente vai

não esperes que a manhã morra

nem que este grito se escorra

no patamar das idades.

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