Sobre o pesadelo do tic-tac no cotidiano das grandes cidades, lembrei-me agora do relógio de parede da casa onde morei quando menino. Onde terão terminado as horas daquele relógio? Como se praticasse um ato de justiça, todo dia papai se aprazia dando-lhe corda pacientemente. Sabia reconhecer o seu valor. A caixa de madeira de lei em estilo colonial, a lente frontal de proteção do mostrador e o pêndulo prateado davam-lhe ares de nobreza.
Dias antes da triste partida de Labiata com destino ao Rio, após a morte de papai, foi vendido a um comerciante local. Com o dinheiro, mamãe inteirou o custo da viagem da família retirante (ela e quatro filhos). Fomos forçados por inclemente seca a buscar a sobrevivência em terras distantes. Deixei tudo lá: a banda de música, onde eu tocava trompete, as festas de São João e do Pastoril, os banhos no açude, nadando apenas com as pernas, mantendo erguidas as mãos acima da água, a escola, onde era sanfoneiro-mor, o cinema do Seu Severino, onde era o projecionista, e as brincadeiras com pião e bola de gude da Rua do Xêxo. Oh, saudade!
O relógio era o utensílio mais exuberante e ao mesmo tempo sóbrio daquela casinha simples, com luz de candeeiro e fogão à lenha. Com status de santo, figurava no centro da parede da pequena sala, ladeado pela imagem do sagrado Coração de Jesus num bonito quadro.
Muitas vezes me deixei hipnotizar diante dos ponteiros salientes daquele relógio, a deslizar lentamente sobre algarismos romanos ali estampados de I a XII. A cada hora, emitia um som aveludado e melódico. Tornava suave o passar do tempo.
Havia outras maneiras para saber as horas. Além do canto do galo duas horas antes do dia amanhecer, o sol era o mais solene e infalível dos relógios. Muito cedo aprendi com o astro-rei a decifrar o andar das horas. Seguia-o desde o nascente, por detrás da Serra da Bica, até os confins da Serra dos Timóteo ou da Boca da Mata, onde se escondia. Às seis da tarde, as cortinas do dia se encerravam com o badalar dos sinos da Igreja Nosso Senhor Bom Jesus dos Remédios anunciando a missa e com a conclamação, pelo rádio, para a Ave Maria de Gounod. A orquestração de diferentes pássaros também era um aliado permanente para nos tirar da cama na hora certa. Nesse caso, havia uma recompensa irrecusável: leite quente e espumante de cabra ou de vaca no Rancho Velho.
O tempo desembestou e trouxe um redemoinho digital para levar tudo. Tudo, tudo. Não há mais espaço nas moradas para relógio de parede. E quando sobra, faltam mãos para lhe dar corda. Não bastante, os arranha-céus sequestraram o sol, e os sabiás passaram a cantar sem horário fixo. Trocaram o dia pela noite. Nesse processo avassalador, restou daqueles relógios genuínos criados pela natureza apenas o canto do galo proclamando as horas em algum lugar mato afora.
Assim como os pássaros, vivemos atordoados com o horário na cidade grande. Eles, vitimados por fenômenos desordenados da natureza, causadores de oscilações atmosféricas constantes entre luz, som e sombra; nós, prisioneiros espremidos inapelavelmente nos ponteiros das múltiplas engrenagens da vida moderna.
Não sem razão, João Cabral de Melo Neto, o poeta dos versos toantes, compara o relógio a um bicho: Ao redor de vida do homem existem certas caixas de vidro dentro das quais, como em jaula, se houve palpitar um bicho.
Feito a crônica, remetida para João Marques, ele me mandou pelo Whatsapp esta mensagem:
É, levaram o relógio de parede e ficou a parede, com a saudade emoldurada no tempo. Nunca pensei, o relógio morando dentro da caixa, a tivesse como caixão. Para continuar vivo, plantou os pés na parede, para nunca sair. E ficou, batendo as horas, de saudade em saudade. Certo! foi descido do lugar se sempre, mas nunca desceu o espírito. Foi, como tudo é, amigo Saraiva, misturado à eternidade. Só há uma diferença: o pêndulo não balança mais como antes, na horizontalidade. Vertical, o pêndulo, se move agora na verticalidade do grande relojoeiro, que criou o tempo e a intemporalidade sem fim.
*José Alexandre Saraiva, nasceu em Panelas - PE, é advogado, jornalista, músico e escritor. Membro do Centro de Letras do Paraná, do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e do Instituto dos Advogados do Paraná, conquistou prêmios literários de abrangência nacional, um deles de minicontos escrito com dez linhas. Na área musical, foi laureado em Paris por tradicional instituição literária e artística, na categoria composição. Tem obras publicadas no campo do direito e um livro de crônicas, duas delas levadas às telas pela RPC, sistema de comunicação paranaense afiliado à Rede Globo. Dentre os livros que prefaciou, destaca-se "A Verdade sobre Guanella" - relato histórico de um drama protagonizado pela FEB na Segunda Guerra. Além de CDS com músicas autorais textos avulsos publicados na imprensa, há 35 anos assina a coluna De Olho no Leão (hoje blog) no jornal Gazeta do Povo. Foi homenageado pela Câmara Municipal de Curitiba com a Medalha Fernando Amaro de Literatura, pela OAB de Pernambuco, Subseção de Caruaru, que denominou de José Alexandre Saraiva a Sala dos Advogados do Fórum da Comarca de Panelas, e pela Escola Estadual de Referência em Ensino Médio da mesma cidade, que igualmente, designou a biblioteca da instituição com o seu nome. É autor do livro De Labiata a Lagoa da Canoa - passando por Tacaratu, via Quipapá ou Caruaru.
Texto transcrito do jornal O Século de outubro de 2019.

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