Na relação dos burgomestres da Velha República encontramos alguns que mudaram a face histórica de Bom Conselho, o que é natural no curso do processo da administração pública. Vale dizer também que as circunstâncias políticas e econômicas do momento ditaram o rumo das realizações de cada um.
Dos prefeitos dessa época, ou seja, do período de 1889 à 1930, indicamos três nomes que puderam sobressair entre os demais: Augusto Martiniano Soares Vilela, Lívio Machado Wanderley e José Abílio de Albuquerque Ávila.
O coronel Augusto Vilela antes de exercer dois mandatos de prefeito fora presidente do Conselho Municipal e Intendente, entre 1889 e1892. Porém, em janeiro de 1892 realizou-se a primeira eleição municipal republicana, sendo eleito prefeito o Padre João Marques de Souza, que renunciara antes da posse.
De 1893 à 1896 o coronel Augusto cumpre o seu primeiro mandato; sendo, porém, sucedido por seu filho Cezar Eusthaquio Vilela (1896 a 1899), para depois voltar ao poder de 1899 a 1903.
BRANCA TENÓRIO VILA NOVA
Os primeiros atos administrativos no novo regime foram praticados pelo coronel Augusto Vilela. Dizem que era homem disciplinado cuja palavra mantinha pelo fio do bigode. Deu muita importância a educação e foi ele quem nomeara para o distrito de Taquari a notável professora Branca Tenório Vila Nova, que fizera história no ensino das primeiras letras. Com D. Branca o caboclo da roça ficava civilizado no embalo da palmatória... Não era só isso, havia mais: O aluno dominava a tabuada de có, porque nesse tempo não havia máquina de calcular, nem tampouco, o método de alfabetização do pedagogo Paulo Freire. Após o coronel Augusto Villela assume o coronel Pedro Urquisa de Carvalho Cavalcanti, sendo eleito em 10 de julho de 1904 e tomando posse em 15 de novembro deste mesmo ano, conforme ofício endereçado ao governador Sigismundo Gonçalves.
O quarto prefeito de Bom Conselho foi o coronel Lívio Machado Wanderley, alagoano de Frexeiras, estabelecido no comércio onde acumulou riqueza. Era homem de muitos compadres e daí foi um passo para ingressar na política. Administrou o Município de 1907 a 1910, durante o governo de Herculano Bandeira. Partidário do conselheiro Rosa e Silva sofrera as agruras da Revolução Dantista, quando seu genro e sucessor José Cupertino foi eleito em 1910 e obrigado a renunciar em 1912.
LÍVIO MACHADO
O mérito administrativo de Lívio Machado foi o de substituir os antigos lampiões por iluminação elétrica; como ainda formosear a cidade com a construção do calçamento do pátio da Igreja Matriz, praças, ruas e a ponte sobre o rio Papacaçinha, dentre outras obras.
Com o término do mandato do coronel Lívio em 1910, assume a prefeitura, como dito, o seu genro José Cupertino Tenório (1910-1912), cuja gestão foi bastante tumultuada devido a oposição da família Vilela e dos membros locais do Partido Republicano.
Por outra parte quem de fato administrara o Município no lugar de Cupertino fora a subprefeito Joaquim Firmino de Araújo, pois, o titular passara quase todo seu mandato em gozo de licença sem vencimentos.
Com o agravamento da crise política, o capitão Joaquim Firmino, estando no exercício da chefia do Município, encaminha ao governador Dantas Barreto ofício datado de 24 de julho de 1912, expondo a situação vivida pela administração local, destacando entre outros, os seguintes fatos: 1) Que o prefeito José Cupertino encontrava-se licenciado; 2) Que o sr. Luís Carlos Vilela, dirigente local do Partido Republicano, estava orientando os munícipes e não pagarem os tributos municipais; 3) Que o delegado de polícia não estava dando as garantias de praxe; 4) Que o alferes Nicolau estava auxiliando a administração na cobrança de impostos, apesar da resistência e oposição da família Vilela; 5) Que pede ao governador providência junto ao chefe de polícia para manter a ordem no Município.
Não se sabe por certo se essa solicitação do prefeito em exercício fora atendida pelo governador do Estado, considerando sua forte ligação política com a família Vilela.
Com a renúncia de José Cupertino em 1912, o subprefeito Joaquim Firmino de Araújo completara o seu mandato até 1913; podendo dessa maneira ser considerado o sexto prefeito da velha República, posto que, Cupertino, o quinto prefeito, quase não exercera o poder.
A partir de 1913 assume a chefia do Município o dantista Luís Carlos Vilela, tabelião, muito prestigiado pelo governador Dantas Barreto.
É bom lembrar que Luís Carlos, dirigente do Partido Republicano local, participara ao lado de Alípio Luna, José Abílio e outros vassouras da Revolução Pernambucana de 1911, pegando em armas e combatendo os "marretas" do conselheiro Rosa e Silva.
Foi exatamente durante esse período efervescente da história de Bom Conselho que surge a figura do coronel José Abílio de Albuquerque Ávila, que ainda jovem assumira a presidência do Tito de Guerra, como também fora nomeado coronel de patente pelo então presidente da República Wenceslau Brás.
Luís Carlos Vilela terminou o seu mandato em novembro de 1916, já no começo do governo Manoel Borba.
Em 15 de novembro de 1916 assume o cargo de prefeito o coronel José Guilherme Rodrigues Laranjeiras, prestigiado empresário bonconselhense, porém, não muito afeito à política, tendo deixado o cargo no final de 1918, talvez por divergência com o coronel José Abílio, que gozava de prestígio com o governador Manoel Borba, causando ciúme político ao coronel Laranjeiras.
Com a renúncia do prefeito José Guilherme, em 1918, faltando ainda um ano para o término do seu mandato, assume provisoriamente o exercício do executivo o presidente do Conselho Municipal Sr. Clarindo d'Abreu Pereira, conforme notícia o ofício datado de 31 de dezembro de 1918, encaminhando ao Sr. Secretário geral do Estado.
Já em 15 de fevereiro de 1919, João Peixoto Soares comunica ao Secretário Geral do Estado que tomou posse no cargo de prefeito para o qual foi nomeado em 10 de fevereiro deste mesmo ano pelo Sr. Governador.
Observa-se assim que o Sr. Clarindo d'Abreu teve pouco tempo no poder, pois entrou no final de dezembro de 1918 e saíra de fevereiro do ano seguinte, ou seja, esquentou a cadeira apenas 1 mês e dias.
João Peixoto Soares (1919-1920), era pessoa de confiança do Cel. José Abílio, pertencia ao seu grupo político; como ainda o tabelião Lisimaco e o capitão Alfredo Canuto.
Após João Peixoto assumir a prefeitura, em seu primeiro mandato, o mesmo fora sucedido pelo Cel. José Abílio de Albuquerque Ávila (1921-1924), que já vinha fazendo o alicerce do poder desde 1911, quando participara do movimento Dantista, defendendo a bandeira anti-oligárquica do "salvacionismo".
José Abílio, ou melhor o cel. Zezé como era conhecido da matutada, homem de hábitos simples, tolerante e superticioso. Tinha horror ao número treze, fugindo desses dois dígitos como o Diabo da Cruz.
Note-se que amava ao poder e fora prefeito de Bom Conselho quatro vezes, sendo duas na velha república, sempre protegendo afilhados, porém, não acumulou fortuna. Como prefeito calçou ruas, e construiu praças e escolas, como também melhorou a iluminação da cidade.
O cel. José Abílio foi sucedido, após seu primeiro mandato, pelo coletor Ulisses Tenório (1924-1927), homem culto e pai de filhos ilustres. Lia Balsac com facilidade, e tinha um filho coronel da Polícia Militar, um outro Promotor de Justiça, um fiscal do IAA e uma filha casada com o juiz federal Arthur Maciel. Homem sóbrio fez uma administração voltada à educação.
Em 1927, José Abílio retorna ao poder em seu segundo mandato, que terminaria em 1928; porém interrompido em 1927, com a chegada do governador Estácio Coimbra seu desafeto desde 1911, quando Coimbra fugira pelos fundos do palácio, enxotado pela Revolução dantista.
José Abílio acusado de alguns delitos juntamente com seu grupo político. Houve perseguição, fuga e prisão. Ao final, o coronel obteve absolvição sob o patrocínio do notável criminalista José de Brito Alves.
O segundo mandato do coronel Zezé foi completado pelo subprefeito João Peixoto Soares (1927-1928).
É importante lembrar que no segundo pleito disputado pelo coronel Zezé havia como concorrente e adversário o Padre Alfredo Pinto Dâmaso, religioso dotado de grande carisma e forte militante de oposição. Dizem que do púlpito fizera vários libelos acusatórios ao coronel de Papacaça, que fingia nada entender; como bom católico todos os domingos ia à missa da Matriz, pertinho da sua casa, ouvir com devotada atenção a palavra do sacerdote.
Como é do conhecimento notório o Padre Alfredo perdeu a eleição de prefeito para o coronel Zezé, que confiava certamente nas urnas gordas do Taquari e de outros distritos afastados da influência da sede. Nesse caso a palavra do padre não alcançava a vontade eleitoral dos embrenhados currais dominados pelo coronel.
Assim, no final de 1920 o coronel José Abílio abandono o poder municipal e sai, provisoriamente, da cena política, somente voltando após a Revolução de 3 de outubro, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder e do interventor Agamenon Magalhães, com quem gozava de grande prestígio.
Como já mencionado o coronel José Abílio foi sucedido no governo municipal por João Peixoto Soares e este pelo coronel Lourenço Cavalcanti de Albuquerque Lima (1929-1930), considerado último prefeito da velha república, pois, com a Revolução de 3 de outubro de 1930 surge uma nova safra de gestores municipais. Compreenda-se que com o interventor Carlos de Lima Cavalcanti, Pernambuco começa um novo ciclo da sua história política.
Anote-se que na transição entre essas duas fases o coronel Lourenço Lima foi uma espécie de ponte ligando os grupos que se opunham em busca de uma nova ordem. Ele fez um governo curto, porém decidido a realizar algumas melhorias para o Município.
Durante sua administração Lourenço Lima teve também de enfrentar problemas de natureza política, como por exemplo, a resistência de um grupo de comerciantes que se negava a pagar tributos, sob a liderança de Antônio Umbelino Cordeiro, pertencente a Aliança Liberal, conforme relato do Prefeito ao chefe de polícia Dr. Carneiro Leão.
Umbelino insurgiu-se contra o prefeito Lourenço porque não desejava pagar impostos da sua filial de tecidos sediada no distrito de Caldeirões dos Guedes, alegando que a mesma somente funcionava em dia de feira aos domingos.
Outro fato interessante ocorrido no curso da gestão do prefeito Lourenço foi o da compra de um motor de luz alemão que ficara retido no porto do Recife. Por meio de ofício o prefeito solicita ao Governador do Estado interceder junto ao Ministro da Fazenda para obter a liberação do motor de marca Lubek; no que foi atendido com base em lei especial. Depois de liberado e instalado na cidade de Bom Conselho, o dito motor jamais teve o seu pagamento quitado. O governo do Estado como fiador da compra cobrava os títulos devidos e o chefe da municipalidade sempre alegava falta de caixa para saldar o referido compromisso.
O importante nisso tudo é que os habitantes da cidade não ficaram às escuras e seus principais logradouros foram iluminados pela força motriz da famosa máquina europeia.
O prefeito Lourenço Lima também tinha preocupação com o setor educacional, procurando atender sempre que possível o ensino primário das comunidades mais carentes, inclusive, solicitando ajuda ao Estado para esta finalidade. O exemplo marcante desse fato foi o seu pedido ao Secretário de Justiça para instalar em Caldeirões uma cadeira de ensino estadual. Em outra correspondência apresenta ao Secretário Genario Guimarães o acadêmico de Direito Arnóbio Tenório Wanderley, encarregando-o de mandar trazer para o Município móveis e outros equipamentos destinados as escolas localizadas na sede e nos distritos do Prata e São Serafim.
É bom lembrar que o referido acadêmico fora depois de formado nomeado para Secretário de Estado, provavelmente por influência do coronel José Abílio. Desse modo podemos concluir que na velha república Bom Conselho teve cerca de 13 prefeitos; sendo alguns nomeados para completar mandato interrompido por renúncia, como no caso dos prefeitos José Cupertino Tenório e José Guilherme Rodrigues Laranjeiras. Já os prefeitos com maior número de mandatos foram Augusto Martiniano Soares Vilela e José Abílio de Albuquerque Ávila. No entanto, o primeiro eleito democraticamente foi o Padre João Marques de Souza, que renunciara antes da posse. (Transcrito do jornal A Gazeta (Bom Conselho de março de 2017).
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