segunda-feira, 13 de abril de 2026

A História da Família Gueiros - Parte IX

Rita Francisca da Silva Gueiros, em 1910 - Nasceu em 15/02/1838,  faleceu em 27/06/1912

Brejão de Santa Cruz, mencionada no relatório do delegado José Teles Furtado, era um pequeno povoado, localizado exatamente a meio caminho entre Garanhuns e a Mochila. Afirmava Ruber van der Linden, um estudioso da história de Garanhuns, que o Brejão era "um lugar onde ladrões de cavalo tinham em pouca monta a vida e propriedade das pessoas, de uma população honesta e trabalhadora, que sempre foi submissa e manietada aos políticos", sem ter coragem de reagir, para não sofrer revides violentos (Dias, 1954). Ali residia e "lordeava" uma elite de cafeicultores mochileiros, o que não era exatamente o caso de Francisco de Carvalho Silva Gueiros, assoberbado com a manutenção de sua numerosa família, em Garanhuns.

O casal Francisco de Carvalho Silva Gueiros e Rita Francisca Barbosa da Silva Gueiros produziu nove filhos, adotando ainda uma menina, a saber: Francisco de Carvalho Silva Gueiros Filho, Clarindo Barbosa Silva Gueiros, João de Carvalho Silva Gueiros, Antônio de Carvalho Silva Gueiros, Jerônimo da Silva Gueiros, Maria da Silva Gueiros, Josefina da Silva Gueiros, Amélia da Silva Gueiros, Francisca da Silva Gueiros, Anália da Silva Gueiros (adotiva).

Francisco de Carvalho Silva Gueiros, em 1850 - Nasceu em 29/07/1829, faleceu em 26/06/1906.
Dono de hospedaria em Garanhuns, o casal e filhos viviam nessa época como uma família típica da terra, trabalhando e se divertindo, sem grandes perspectivas na vida, e sem conhecimento do mundo maior, quer seja do Brasil, ou do exterior. Eram inveterados festeiros. Os filhos, Antônio e Jerônimo Gueiros, mais tarde pastores presbiterianos, eram famosos localmente como tocadores de sanfona. Antônio era reconhecidamente o melhor sanfoneiro da cidade. 

Escrevendo sobre esse aspecto folclórico da vida da família, o  médico e pastor presbiteriano Dr. Israel Furtado Gueiros assim registrou: "Toda família gostava muito de danças. Antigamente as casas tinham piso de tijolo e na casa dos Gueiros ele se desgastava no centro da sala de tanto dançarem. Tudo era motivo para uma dança. Antônio e Jerônimo se revezavam na sanfona. Aos sábados nunca faltava uma festa. Quando o baile não era na casa dos Gueiros, era na casa de Teófilo de Azevedo ou na de Belarmino Dourado. Os pais confiavam as filhas aos Gueiros porque sabiam que na companhia deles as moças estavam a salvo de qualquer insulto ou qualquer pilhéria. Depois da dança, acompanhados das irmãs, iam levá-las à casa dos pais" (I. Gueiros, 1971).

Antônio de Carvalho Silva Gueiros, 1950
Lamentava o pastor Antônio Gueiros que todos eram também chegados às bebidas alcoólicas. O próprio Antônio, antes de sua conversão ao Evangelho, assim deixou registrado o missionário escocês Henry Jonh McCall, chegava a beber meia garrafa de gin em uma festa, e depois passava a criar casos e a puxar brigas, chamadas de "boruço", no linguajar dos jovens da época. "Brigas essas quase sempre resultando em facadas e punhaladas", acrescentou o escocês. Nisso eram todos eles culpados, até mesmo os policiais da família. Eram "policiais policiáveis", na expressão do governador de Pernambuco Eraldo Gueiros Leite, descendente dos mesmos.

Além da sanfonista e brigão, Antônio Gueiros era repentista - poeta e cantor repentista - que participava de desafios nas festas da cidade. Chegou a ter mais de 200 "repentes" preparados, que evidentemente não eram tão "repentes" assim - "truque de repentista", explicava ele à filha, professora Noêmi Gueiros Vieira. 

Por alguma razão nunca explicitada, ao se converter ao Evangelho, e de mudar de vida, Antônio Gueiros abandonou não apenas a sanfona mas também a arte de versejar, talvez por considerá-las "atividades mundanas". O irmão mais jovem, o pastor Jerônimo Gueiros, ao contrário, tornou-se famoso poeta - famoso pelos menos no Nordeste e no ambiente evangélico brasileiro - autor de inúmeros poemas e hinos religiosos, ainda hoje recitados e cantados nas igrejas evangélicas do Brasil.

Em se tratando de poeta e literatura em geral, todo o Nordeste era e ainda é rico em poetas repentistas e poetas do povo. Dentro de uma tradição ainda medieval, recitavam, e todavia recitam, seus longos poemas nas feiras, criando assim o grande acervo literário popular do que hoje se chama de "literatura de cordel".

Tão medievalesca era essa tradição que, dentre muitas dessas peças de literatura popular, até bem recentemente ainda vendiam-se nas feiras do Nordeste livros e folhetins em prosa e verso, cantando as glórias do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, heróis de inúmeras gerações de sertanejos. Símile aos medievais, os sertanejos nordestinos acreditavam em "corpos fechados" pelo poder de Deus, infensos às balas e aos punhais, e na capacidade do homem de pelo poder de Deus fazer coisas sobrenaturais, como fazia o cavaleiro Roldão dos folhetins sobre Carlos Magno, que cortava a cabeça de dez mil mouros com um só golpe de espada. D. Sebastião, o tresloucado rei pós-medieval português, crera também piamente que com uma só espadada cortaria a cabeça de "10.000 sarracenos", quando em 1578 foi à África em conquista de Ceuta, e lá ficou morto em Alcácerquibir. 

Tem-se pouca informação do tipo de trabalho no qual se engajavam os membros da família Gueiros, além do velho Francisco e sua mulher D. Rita Francisca, donos de uma hospedaria. Dois dos  filhos, Francisco Gueiros Filho e João Gueiros, foram comissários de polícia, após a proclamação da República. Sabe-se também que, em 1894, Antônio Gueiros, então com 24 anos de idade, e o jovem Jerônimo Gueiros, então com 14 anos, trabalhavam em uma marcenaria pertencente ao irmão mais velho, Francisco Gueiros Filho. Esse trabalho começara em consequência da "Lei Áurea", que  causara a  perda dos escravos da família. Os ex-escravos se estabeleceram no quilombo do Castainho, na periferia de Garanhuns, e os rapazes tiveram então de enfrentar a "vergonha" de trabalhar com as próprias mãos. Tão vergonhoso era esse tipo de atividade que até bem recentemente, na década de 1940, os homens de classe média no Nordeste, símile aos mandarins chineses, deixavam crescer as unhas dos dedos mindinhos, a fim de demonstrar a todos não serem operários, pois não trabalhavam com as mãos.

Jerônimo da Silva Gueiros, Recife, 1948
Marcenaria na época era trabalho pesadíssimo, feito com ferramentas primitivas e inadequadas. Utilizavam madeira de lei, para fazer móveis: pau-ferro, angelim, maçaranduba e especialmente o amarelo-vinhático, todas elas madeiras duríssimas. Essas eram trabalhadas com primitivos serrotes e plainas, deixando os braços e as mãos dos rapazes tão doloridos que mal os suportavam no final do dia. Antônio Gueiros contava aos filhos, com lágrimas nos olhos ter sido aquele o trabalho mais pesado que jamais fizera em toda sua vida e, sem dúvida, também o mais "vergonhoso".

Jerônimo Gueiros, quando criança, dedicava-se a serviço mais ameno: possuía um negócio de fazer cigarros artesanais, assim contou aos filhos, tendo chegado a fazer 1.200 cigarros em só dia. Era também exímio profissional nos jogos de cartas, sua maior ocupação, antes de sua conversão ao Evangelho (Butler, 1909).

Jerônimo Gueiros não esqueceu o trabalho duro que compartilhara com o irmão mais velho, Antônio Gueiros. Tanto assim que, na madrugada de 21 de dezembro de 1948, quando estava bem enfermo, e imaginando que em breve morreria, escreveu-lhe poema de despedida, no qual relembrava os dias difíceis, quando os dois eram o que chamou de "operários", a saber:

Meu Último Adeus a Antônio Gueiros

Jerônimo Gueiros

Amigo e irmão com quem na vida inteira

Eu quase comparti da mesma sorte,

Ora triste, ora alegre ou na canseira

Em que vimos marchando para a morte.


Seguimos ambos a ideal carreira

Que pela cruz eleva a humana sorte.

Ambos alçamos a imortal bandeira

Do príncipe da Paz, com altivo porte.


Fomos irmãos na vida de operário;

Irmãos na grande proliferação;

Irmãos no estudo em curso extraordinário.


Irmãos até no mal do coração

Que fez dos nossos dias o Calvário,

Que te mando, em pranto, um adeus irmão.

O problema da perda dos escravos também afetou os pequenos cafeicultores de Brejão, como o capitão "Chico Furtado". O problema do capitão foi resolvido de igual maneira: os filhos tiveram que enfrentar o trabalho braçal, no lugar dos escravos. Como o esse tinha apenas um filho e cinco filhas, essas sinhazinhas, que nunca haviam trabalhado no pesado, tiveram de colher as safras de café com as próprias mãos, ou ficar sem elas. O cafeicultores com reservas financeiras solucionaram o problema contratando mão-de-obra paga, em geral os próprios ex-escravos, residentes no quilombo do Castainho e em outras localidades próximas. Não é de causar espanto que toda a região tenha se tornado republicana militante.

Algo curioso da época: conforme ocorrido em muitos outros lugares no Brasil, alguns dos ex-escravos da família adotaram o sobrenome de seus ex-donos. Alguns membros da família Gueiros, recentemente visitando a região da Mochila, encontraram várias  pessoas de puríssima ancestralidade africana, com o sobrenome Gueiros. Em um local chamado Capoeira, encontraram um deles, dono de uma pequena hospedaria chamada "Hotel Gueiros". Esses parentes saíram de lá bastante abalados, vendo esses sobrenome utilizado por pessoas que não eram da família.

Da educação limitada, em 1894, os Gueiros não eram, no entanto, analfabetos. Tinham todos estudado as primeiras letras e as "quatro tábuas de aritmética" - como era então falado - em escolas de primeiras letras mantidas pelo governo do Estado, as únicas  escolas gratuitas disponíveis em Garanhuns, nas quais os professores sempre cobravam algo "por fora".

Jerônimo contou aos filhos que não tinha podido pagar a escola, no entanto encontrara um professor muito capaz e amigo que lhe ensinara as primeiras letras sem nada lhe cobrar. Em notas autobiográficas deixou registrado que estudara as primeiras letras no Colégio Acióly, depois como aluno privado de D. Rena Butler, e no Colégio 15 de Novembro. Presume-se que Acióly tenha sido esse professor tão caridoso e consciencioso que lhe ensinara as primeiras letras mesmo sem remuneração extra.

Sertanejos apenas alfabetizados, envolvidos na política local, e vivendo como a maioria daquela população interiorana, os Gueiros em breve teriam suas vidas totalmente modificadas, com a chegada dos primeiros missionários protestantes a Garanhuns. Essa foi uma modificação profunda, dramática até, que lhes mudou por completo o rumo da vida.

Fonte: Livro - Trajetória de uma Família "A História da Família Gueiros" de David Gueiros Vieira / Primeira Edição Julho de 2008 / Editora Nossa Livraria.

Fotos: (1) - Rita Francisca da Silva Gueiros, em 1910 - Nasceu em 15/02/1838,  faleceu em 27/06/1912. (2) - Francisco de Carvalho Silva Gueiros, em 1850 - Nasceu em 29/07/1829, faleceu em 26/06/1906. (3) - Antônio de Carvalho Silva Gueiros, 1950. (4) - Jerônimo da Silva Gueiros, Recife, 1948.

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