Hoje, poderei morrer, com o ano. Como se morre numa passagem, no finado de um segundo, para o surgimento de um novo tempo.
Mas morrerei, diferente do tempo. Não serei mais incluído no novo calendário. As flores, em vez de florirem o amanhecer, serão sacrificadas, em última instância, para colorirem ainda esse fim vertical. E, longe de mim, o tempo, que se refaz, triunfará a existência... luz e som, e ar e espaço... triunfará da convivência dos homens, de risos e choros, das lembranças do passado e da espera do futuro. A minha cidade será a mesma, do que se vive e dos esquecimentos. De cada recanto de rua, dormirá o espectro do que passou ali... passos, gestos e falas, no teatro da vida.
Eu, hoje talvez, morrerei de ano velho e de tudo que se foi. Os amigos e os acontecimentos de perto. Como era tudo perto, nos anos que nunca morreram! Morrerei como se morre, incerto, nem por um pouco, do sentido terminal da morte. É que o ser humano, por distante que more, crer mais em si próprio do que nas piores adversidades da vida. A vida é contra a morte. É de se crer mais em uma existência perene, do que numa possível extinção. Contudo, é possível, morrerei hoje. E, amanhã, quando prevalecerá o ânimo da renovação do tempo, festivo, os sinos dobrarão por mim, e alguma lágrima será vertida nos olhos de uma amiga. Daí, serei feito dos rituais fúnebres, das boas referências, do sepulcro, até vir o silêncio, e nele, no silêncio, o sonho, que nunca acaba. Esse é infinito, e a vida existe pela possibilidade do sonho. Ressuscitarei, possivelmente no terceiro instante, com o sonho eterno.
*João Marques dos Santos, natural de Garanhuns, onde sempre residiu, é poeta, contista, cronista e compositor. Teve diversas funções nas atividades culturais da cidade: foi Presidente da Academia de Letras de Garanhuns, durante 18 anos, Diretor de Cultura do Município e, atualmente, é presidente da Academia dos Amigos de Garanhuns - AMIGA. Compôs, letra e música, o Hino de Garanhuns. Mantém, desde 1995, o jornal de cultura O Século. Publicou quatro livros de poesia: Temas de Garanhuns, Partições do Silêncio, Messes do azul e Barro.

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