domingo, 3 de agosto de 2025

Natal

Aurélio Muniz Freire

Dr. Aurélio Muniz de Freire* | Garanhuns, 18/12/1976

Há dois mil anos, ouviu a humanidade - a maior página que já se estampara na terra. Não fora escrita pela materialidade das tintas. Não recebera o sinete das convenções, com que se costumam incensar as glórias e os triunfos passageiros. No entanto, a água viva que se fazia fluir, era retirada da grandeza universal, à distância da transitoriedade da vida e das coisas, para a perenização de tudo e de todos.

Era a humanização do verbo que pontificava mais uma vez a sua presença para a iluminação do mundo. Era o marco decisivo na história dos homens, que se fincava na terra. Era a permanência de um convite e de um ideal, derrubando as barreiras do convencionalismo humano, na implantação de uma nova doutrina, que atravessaria a esteira dos séculos. Era a promessa de uma nova Canaã, na construção de um reino dentro de nós mesmos, emoldurando outras paisagens na intimidade das coisas e das criaturas.

Toda a sublimidade dos ideais estavam grafados numa só palavra - Cristianismo. Todos os impulsos de evolução achavam-se iluminados numa só presença - Cristo. Mas, faz milênios desta iluminação e desta presença.

Aquele Natal despontava num raiar de horizontes, despertando auroras, constituindo hosanas de um outro sol. Nascia novo oriente, para fazer brilhar todos os ocidentes da terra.

A mensagem cristã trazia o poder da luz, e espancava as trevas dos caminhos. Era a própria vida, destruindo a mentira da morte. Era a verdade, demolindo a fragilidade das inconsistências e dos sofismas. Era o caminho, na abertura de outras vias, como sinal aos novos.

A permanência daquele Natal, que está lavrado nas páginas evangélicas do Cristo, fugiu na maioria dos corações. A alegria sadia e pura, hoje se troca na satisfação fugaz e fantasiosa, nos salões de tantas festas, e nas salas de tantas desilusões, onde as criaturas trocam também suas frustações e seus desenganos, em taças e copos de um suicídio lento. 

O sentido do Natal é outro bem diferente e ainda não sentido pela maioria dos  mortais. Os primeiros cristãos renascem na espiritualidade de poucos. O ódio continua à expulsar o amor. O perdão ainda substitui pela vingança. A vaidade e o orgulho afastam o sentimento da humildade. A soberba de muitos ainda esmaga a convicção e a fé dos primeiros tempos. A exibição secular, na escalada das convenções - ofusca os sentimentos da caridade. A moralidade farisaica de tantos ainda veste os mesmos tecidos do arcaísmo.

Palmilhemos o Livro da Vida. Dele, procuremos retirar este Natal, que deve ter um sentido permanente e diuturno, na vida e no minuto de cada um. O nascimento do Mestre terá expressão e conteúdo para o cristão, quando Ele, Jesus, fizer morada dentro de cada um de nós, quando formos o seu templo, na edificação do  seu reino. O sublime Rabi nunca morreu. Continua a renascer a cada minuto e a cada segundo. 

*Jurista e escritor.

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