segunda-feira, 16 de junho de 2025

Mário Souto Maior 'um cabra da peste'


Manoel Neto Teixeira*

O etnólogo e folclorista pernambucano Mário Souto Maior (1920-20010, autor de dezenas de títulos, entre os quais. Nomes próprios Pouco Comuns, Dicionário Folclórico da Cachaça; Como Nasce Um Cabra da Peste; Nordeste: a Inventiva Popular; Folclore da Alimentação; Comes e Bebes do Nordeste; Dicionário do Palavrão e Termos Afins; Território da Danação, é considerado um dos mais abalizados pesquisadores da cultura folclórica do Nordeste brasileiro. Ele foi, por muito tempo, integrante da seleta equipe do Mestre Gilberto Freyre, no Instituto (hoje Fundação) Joaquim Nabuco de pesquisas Sociais, na condição de Chefe da Coordenadoria de Estudos Folclóricos.

Com a obra Folclore e Alimentação conquistou o Prêmio Sílvio Romero, versão 1979, do Ministério da Educação e Cultura, e, com o mesmo título, o GranPrêmio Iberoamericano Augusto Cortázar, instituído pelo Fondo Nacional de las Artes do Ministério da Educacion Y Justiça da Argentina.

DICIONÁRIO FOLCLÓRICO DA CACHAÇA


Em edição de 2000, pela Comunicação Editora, foi publicado o livro Mário Souto Maior, Um Cabra da Peste, com artigos, ensaios e notas de autores dos vários campos do saber, da literatura às ciências sociais, antropologia e do folclore, sobre a obra desse pernambucano, estudado e pesquisado em todo o Brasil e por instituições de vários países. A publicação teve a coordenação de Jan Souto Maior.

O livro Dicionário Folclórico da Cachaça encantou a todos, pelo alcance que abarca o tema. Beber cachaça, no tempo da nossa colonização, era hábito restrito a negros e escravos. Hoje, tudo está mudado, a cachaça é consumida por todas as correntes sociais, entre pobres e ricos, dispondo-se de um cem número de rótulos e sabores, onde se mesclam  a cachaça com frutas regionais.  Virou inclusive produto de exportação, com engenhos e alambiques espalhados por todas as regiões do Brasil, com expressiva repercussão na economia e geração de empregos. A seguir, alguns depoimentos de escritores, jornalistas e pesquisadores de todo o Brasil, sobre a obra de Mário Souto Maior:

"Este Dicionário Folclórico da Cachaça e, ainda, expressiva fonte de sugestões para linguistas interessados em uma análise compreensiva da invenção verbal do povo brasileiro. Auxiliaria ele os escritores mais ligados às formas populares de expressão ao oferecer-lhes uma grande bateria de locuções e temas colhidos em vários estados. O povo gosta de batizar com muitos nomes aquilo que mais  de perto o impressiona. Através deste dicionário temos uma panorâmica de como a cachaça ou a primeira escuma que o caldo de cana bota fora, na descrição da Antonil. é tratada pelo povo: objeto de carinho (lindinha) ou de maldição (veneno); apresentada ora como manifestação do Bem (entras-na-Vinha do Senhor), ora do Mal (porco); alvo de humor (andas cercando o frango); e de tristeza (choro); poética (água de setembro); ou pesada de licenciosidade (ou de casa). Por fim, ela é boa pra tudo". (Alberto da Cunha Melo), Recife.


CADA LIVRO REVELA-NOS UM POUCO DO QUE SOMOS


"A obra de Mário Souto Maior é indispensável ao conhecimento do Nordeste. Nela estão os costumes, o comportamento, a cultura, a alma do povo nordestino. Cada livro revela-nos um pouco do que somos, do que pensamos, como nos relacionamos com o meio e com as outras pessoas. Instigante, inteligente, múltiplo em abordagens, torna-se fundamental ao pesquisador das ciências do homem conhece-la. Tudo ali resultou da pesquisa direta na fonte popular. Vai ao campo, pesquisa em fontes segura para expor e concluir com a precisão de um estudioso sério e competente". (Altimar Pimentel).

"Penúltimo: Gole Final do Bom Bebedor". Também conhecido por "Saidera" - o último copo, o brinde terminal da despedida jubilosa. Esta expressão, criada pelo inesquecível Joffre Cabral e Silva (1905-1968) poderá ser acrescentada pelo pesquisador Mário Souto Maior, do Recife, na segunda edição do originalíssimo Dicionário Folclórico da Cachaça, onde  foram catalogadas mais de mil relacionadas ao consumo de aguardente, num trabalho dos mais interessantes". (Aramis Millarch).

"Uma coleção que compreendeu 645 marcos diferentes e o farto material recolhido numa pesquisa no Nordeste fizeram de Mário Souto Maior o maior estudioso e o que mais conhecimentos possui sobre a cachaça. Catalogou rótulos, aprofundou-se em sua origem (antes era bebida apenas de negros e escravos), seus efeitos terapêuticos e misturas perigosas segunda a crença". (Ricardo Noblat).

O etnógrafo Mário Souto Maior está elaborando um verdadeiro painel sociológico cujas linhas mais salientes se destacam pelo rigor da análise, na honestidade da pesquisa. (Gladstone Vieira Belo).

Pernambuco sempre foi destaque na produção de cachaça, com marcas conhecidas e consumidas em todo o Brasil. Existem alambiques em vários estados, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, hoje o maior produtor de cachaça.

No Nordeste a cachaça faz parte do cotidiano dos consumidores, sem distinção de classe social: desde nascimento de filhos, com a indispensável "cachimbada", à base de cachaça e mel de abelha; durante velórios onde não falta a "pinga" para muitos dos convidados que varam as noites de gole em gole, mesmo durante as rezas em homenagem ao morto. Na época da nossa colonização a cachaça era bebida apenas de negros e escravos. Das senzalas o produto foi se "democratizando", e tornou-se indispensável nas prateleiras, botequins, bares e restaurantes de todo o Brasil.

Na cultura popular, informa Mário Souto Maior, há registros inusitados tais como: "Acontece desgraça porque não acaba a cachaça; jogo sem cachaça é como batuque sem viola; pinga demais, tombo na poeira; não há festa de graça, nem poeta sem cachaça. É cantada em prosa e verso pelos poetas da literatura de cordel em todo o Nordeste, conforme os seguintes versos:

Provem essa bebida
Que nos dá sensação nova
De uma vida bem vivida.
Quem a cachaça não prova
É como moça bonita
Que vai virgem para a cova

Destaque para marcas concebidas em homenagem às mulheres: Chica Boa; Mineirinha; Rainha Pernambucana; Ana Maria; Eva; Mulata. Os habitantes do interior brasileiro incorporam ao seu vocabulário muitos termos novos por causa da cachaça: É uma brasa, mora; barra limpa e legal. Episódios históricos: Aliada; Monte Castelo; invasão e vitória; quando Hiroshima e Nagasaki foram destruídas, foi lançada no mercado brasileiro a cachaça "Bomba atômica". O espírito de gozação e irreverente do povo foi contemplado com marcas como Gostosa, sópra homem, pop, deixa comigo e amansa sogra.

Assim, com O Dicionário Folclórico da Cachaça e dezenas de outros títulos, Mário Souto Maior ampliou leque de publicações como etnólogo e folclorista de renome, para compreensão da cultura popular e folclórica brasileira.

Além dos já citados, vários outros títulos compõem a sua obra, com temas da cultura popular da nossa região: A Morte na Boca do Povo; Remédios Populares do Nordeste; Alimentação e Folclore: Pros e Contras; Território da Danação. Inclusive várias antologias em parceria com o também pesquisador Waldemar Valente, sobre personagens da cultura e literatura regional. (Manoel Neto Teixeira, jornalista e historiador, é autor, dentre outros: Olinda, das Colinas à Planície (2004), Garanhuns, Álbum do Novo Milênio (1811-2016), MULTIIVISÃO, série composta de dez volumes).

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