sábado, 1 de junho de 2024

Festas Juninas

José Francisco de Souza

Dr. José Francisco de Souza* | Garanhuns, 30/06/1984

Antes das últimas tentativas de algo importante poderemos ter lindas imagens. Elas não são fidalgas porque se improvisam na época de São João. Hoje as fogueiras não podem crepitar sobre o leite do asfalto. As barracas de fogos também foram proibidas para evitar explosão, como já acontecera. Os artifícios da pólvora com seu deslumbramento visual são muitos raros, quase não existem. Contudo, no palco da vida há espaço livre para todos. É sempre proveitoso a busca de maiores dimensões. Os festejos juninos existirão sempre. Quadrilha, samba, coco de roda, casamento matuto, forró pontilhado de músicas e ritmos adequados. Isso desafia o passado, seu tempo é sempre presente.

São presentes e eternos no quadro da paisagem nordestina. Todos sentimos a beleza matutina de uma flor entre os cabelos de uma jovem. Essas lembranças se debruçam em algum recanto da nossa memória. São acontecimentos que marcaram a nossa caminhada. Assim começa a contagem regressiva. A mente procura repetir-se a si mesma e as imagens familiares se nos afiguram como retratos de memória. Isso é natural. Não há quem não se preocupe com os seres humanos e suas condições. A condição determina a sua maneira de viver. E seu comportamento revela algo de seu mundo interior.

Ao nosso universo mental aflorou a pitoresca figura do cidadão CAMILO. Era um homem pobre, casado e pai de numerosa prole. Sua esposa e filhas além dos trabalhos domésticos, ajudavam ainda o seu esposo na sua profissão.  Ele era sapateiro. Gostava de beber para espantar os "fantasmas". Quando chegava o São João toda família entrava no samba. As meninas tomavam conta da sala. Eram sambistas notáveis. Todos os presentes participavam ativamente. Fechava a roda e as meninas improvisavam versos descrevendo o comportamento de cada participante. A brincadeira tinha tudo o que caracterizava a festa junina, destacando-se a faceirice e a criatividade dos improvisos. Isso durava tanto quanto a noite se afastava, revelando a madrugada do dia seguinte.

Nos intervalos as meninas faziam roda em torno a fogueira, onde dois carvões à superfície da água de uma bacia branca buscava o encontro. Se eles se encontrassem o casamento seria certo. Esse prenúncio era muito esperançoso. Os que participavam dessa brincadeira eram jovens repletos de energia. Portadores da vivacidade natural ao jovem sonhador e cheio de esperança. O samba de parelha trocado pela sua própria natureza era contagiante. O ritmo monótono de sua cadência transfigurava-se morta de cansaço.

CAMILO tinha algo dos desejos e dos defeitos que merecem a personalidade humana. Homem simples e complexo ao mesmo tempo. Era um pouco mais do grupo das festas juninas liderança absoluta das nossas mais tocantes tradições. Passado o dia santificado. Ele e a família retomavam o fio de suas responsabilidades profissionais. As meninas alegres e prazenteiras batiam sola e os sapatos de encomenda ficavam para a entrega. As comemorações dos festejos juninos na casa de CAMILO, prolongava-se até as madrugadas do dia de São Pedro.

Ele não perdia oportunidade de se revelar digno de não se frustrar pelos complexos da pobreza. Sua humilde profissão não subestimava a sua capacidade de alcançar os seus objetivos sociais. Era estimado por todas que privavam de sua amizade. Conquistou a alegria de viver ao seu modo. A sua condição tratava-se especificamente de impossibilidade de ordem  econômica. Essa circunstância não lhe constrangia o bom relacionamento. Todo mundo o conhecia e proclamava o ordenamento de sua conduta respeitável como chefe de família e como cidadão.

Esse estado varia no tempo e no espaço. Em cada momento novos valores se impõem. Cada instante tem a sua característica própria. Essa característica era fundamental à conduta do sapateiro CAMILO  e sua família. Era uma artista fidalgo, cujo comportamento como chefe de família se refletia na conduta exemplar de suas filhas. O samba das noites juninas eram a prova de fogo. Talvez não exista mais aqui na terra. Mas as suas pernas hoje bambas, foram rainha dos sambas das noites de São João que certamente não festeja mais. Contudo esse trabalho de hoje é dedicado a CAMILO como um preito de saudade. (*Advogado, jornalista e historiador).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um mundo diferente

José Francisco de Souza Dr. José Francisco de Souza* Esse mundo diferente não é mera  ficção. É um conceito de possibilidades reais. Mesmo, ...