Esta crônica é uma homenagem ao Farmacêutico Luiz Carlos de Oliveira
O nosso estimado Alcaide, homem público que tendo apenas uns poucos anos de vida pública, tem prestado a cada dia da sua administração, relevantes serviços à Garanhuns, tem um perfil excepcional. Ele tem sido e continuará sendo, um político que maneja com desenvoltura as armas dessa atividade multimilenar, que é arte de governar pessoas e cidades e administrar a coisa pública. Mas, Luiz Carlos de Oliveira, o Prefeito, é e continuará sendo sempre o cidadão de fala mansa, gestos discretos, atitudes delicadas e respeitosas. Possuidor de um conjunto de atributos que o caracteriza como um homem marcado por caráter escorreito, sempre acompanhado pela fidalguia e pelas atenções que dispensa à tudo e à todos. Seu perfil tem a singeleza de homem de bem, voltado para o mourejar na faina diuturna pela sobrevivência, buscando fazer o melhor para o próximo. Por isso a sua personalidade, sobremodo autêntica, é aquele de quem vê no homem simples, a cidadania pelo seu princípio mais valioso que é o da respeitabilidade. O respeito ao próximo. Isso ele tem sobejamente.
Porém o traço profissional marcante de Luiz Carlos de Oliveira é característica da sua vida de homem de negócio, que tem seu perfil moldado por vários anos, no amálgama do cadinho da vida como farmacêutico, por traz do balcão da sua "tenda" Santo Antônio", conversando a atendendo amigos e fregueses conhecidos e desconhecidos. Ele tem e deve ter com certeza - muitas histórias e "estórias" para contar. Afinal por traz de um balcão de farmácia se escuta muitas coisas e até confissões "inconfessáveis". Sempre imaginamos que o Farmacêutico e sua farmácia, formam uma espécie de "Oráculo de Delphos", para onde se concentram os pedidos, súplicas e até mesmo lamentações de boa parte da coletividade. Pela natureza daquela atividade sumamente humanística, voltada até para uma concepção quase de filantropia, as experiências devem ser ricas por excelência.
"Seu Luiz, o Sinhô pode vê minha pereba?" É provável que alguém já lhe tenha feito esta indagação. Sua cabeça e sua memória privilegiada carregam um manancial de informações de coisas, fatos, pessoas, e é bem de ver. casos e "causos", bem como pedidos de informes sobre medicamentos, aqueles de nomes difíceis e complicados de se entender.
Aliás farmacêuticos é uma das raras figuras que por necessidade profissional gostam de ler as famigeradas bulas de remédios com aquelas letras microscópicas, de nomes compridos e complicados. Só muita paciência. É melhor não ler e perguntar ao farmacêutico: pra que serve? E ele certamente vai informar. Melhor é entender para que serve o remédio do que procurar entender a sua composição química. Aliás bem antes da Química Farmacológica (do grego "pharmakon" medicamento), da nossa modernidade, nossos antepassados já receitavam seus familiares com a orientação historiográfica da medicina natural. Todo mundo sabe, todo mundo conhece uma planta, uma raiz ou uma casca de pau, que serve para alguma doença. É a Farmacognosia, que é parte da Farmacologia que estuda e identifica os medicamentos de origem vegetal e ou animal.
Nosso amigo Farmacêutico Luis Carlos, o Prefeito, deve conhecer algumas centenas dessa farmacopeia maravilhosa que a vida nos ensina à todos. No meu tempo de menino, (e também no tempo dele), as ervas, raízes, folhas, frutos, e casca de pau eram medicamentos para muitas doenças. Quem não lembra por exemplo, que Boldo é para o fígado? A Colônia para calmante, Sassafrás para reumatismo e o Alecrim para dentição. Remédios mais conhecidos da época era: o Lactargil, depurativo infantil e o Phimathosan para tosse. Sempre lembrando o famoso Emulsão de Scott, de gosto horrível, ou como o Leite da Magnésia enjoado até no nome, também sem gosto de nada. Uma caixinha amarela com um desenho de um homem carregando nas costas um peixe enorme, era um dos piores: "Óleo de Fígado de Bacalhau", ruim que só a peste. E o purgante "Óleo de Rícino"? Em compensação havia algumas plantas gostosas até no nome como a Erva-doce, em forma de chá, bom para a enxaqueca ou o chá de Capim Santo, ou de Erva Cidreira ambos um santo remédio para a barriguinha das crianças. Perpétua Branca era para asma e uma plantinha de nome esquisito: "pega-pinto" que diziam servir para a uretra. As senhoras usavam a planta Jurema branca para banho e asseio íntimo. Quem ficava rouco era aconselhado a mastigar semente de romã. Intestinos desarranjados? com certeza eram curados com caroço de jucá ou um chá de folha de goiaba. Já os rins se davam bem com chá de carambola (ou mesmo chá de "quebra-pedra", para cálculos renais e a mororó servia para todo tipo de fraqueza.
Derrame cerebral poderia ser evitado com semente de Inhame, tomando-se também semente de gergelim para os nervos e a cheirosa canela servia sempre para os estômago também em forma de chá. Gitó era para reumatismo e a malvarosa servia para fazer lambedor contra tosse e rouquidão. Uma porção de bom-nome poderia ajudar os intestinos "preguiçosos". A fraqueza do cérebro e ou esquecimento poderiam ser tratados com sementes de jerimum torradas e comidas com um pouco de sal. Pedra-ume para lavagem e asseio, ou para pequenos cortes e a raspa de catingueira servia para fortificar os nervos. O cheiroso eucalipto (do Parque Euclides Dourado) em um chá bem quente nas noites de frio, sempre serviu para febre e resfriados. A salsa para alergia e o velame para o reumatismo. Alguns grãos de alfazema queimada na brasa provocava aquele cheirinho gosto de quarto de recém nascido. Perfumava-se as roupinhas com a alfazema, que tem cheiro de neném. Qualquer pessoa que tivesse muita secreção nos pulmões podia tomar cambão que a cura chegava.
Tudo isso e muito mais, com certeza está guardado na memória de Luiz Carlos de Oliveira, que antes de escrever suas memórias de político, deverá escrever sua telúrica vivência de farmacêutico e homem do povo. Com certeza o que está "armazenado" é uma "Herança muito Rica", entrelaçada em "Retalhos do Cotidiano", disso ninguém tenha dúvida. (Marcílio Reinaux e jornalista e escritor | Recife, 12 de agosto de 2006).
Luiz Carlos de Oliveira faleceu na tarde da segunda-feira (12) de setembro de 2022 no Hospital Monte Sinai. O ex-prefeito de Garanhuns e empresário no ramo de farmácia tinha 76 anos de idade.

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