Paulo Gervais*
Li em algum lugar que o esforço de enxugamento do texto, de condensar a expressão: poucas palavras, frases curtas, por exemplo, seria uma resposta do autor à urgência da vida que vive o leitor contemporâneo. Ele não teria tempo para demorar na leitura de um texto longo, prolixo, daí a necessidade de ser breve. A forma de escrever então atenderia à comodidade de quem lê. Confesso, no entanto, que não vem da pressa do leitor moderno a minha opção por textos curtos, pelas poucas palavras, pelo gosto do vazio e do silêncio, nem decorre dessa urgência o uso frequente de imagens, de metáforas, que faço, da capacidade que elas têm de dizer o máximo com o mínimo de elementos expressivos. Penso no leitor quando acabo o poema e sou eu também um leitor: aí, então, penso nele. Enquanto escrevo, não. As opções expressivas que faço vêm da capacidade que elas demonstram de dizer o que acho que devem dizer de mim. Não escrevo no vácuo. A experiência é sempre o ponto de partida, mas não onde o poema conclui. A poesia me ensinou desde o começo um descontentamento quanto ao sentido que esta experiência pode ter. Amar, sofrer, são experiências humanas - acontecem a qualquer um - todos somos capazes de amor, de sofrimento, de saudade - o que ensina a poesia é que estas experiências podem ter significados diferentes - que existe uma dimensão - diversa da que se esforça por impor-se como verdadeira, única ou possível à experiência humana que é onde estamos livres para dizer o sentido que condiz conosco - onde a verdade é verdade, não por que fundada no discurso da ciência ou das instituições da fé, mas porque adequada à natureza de quem a diz, e o sentido faz sentido por que responde à necessidade daquele que produz este sentido - nesta dimensão não se cuida em falar na terceira pessoa - este lugar é o lugar da criação, da poesia - onde a experiência comum adquire expressão, sentido e possibilidade pessoal - fala-se aqui na primeira pessoa do singular. Por isso, escrever assim não é deferência ao leitor apressado, é exercício livre de ser o que quero e posso. Esta é a lição que aprendi de fazer poesia. Poesia como esta, Neologismo, de Manuel Bandeira, com poucas palavras e silêncio cheios de segundas intenções.
"Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora".
*Membro da Academia de Letras de Garanhuns, poeta e escritor. (Palestra realizada durante o II FLIG - Festival de Literatura de Garanhuns em 2007.

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