quinta-feira, 10 de agosto de 2023

A Sobrevivência-Mangue-Recife


Cyl Gallindo | Conquistou prêmio nacional de poesia | Friburgo/RJ

Poema II

Aí vão minhas palavras a bordo duma ratoeira.

Quero soltá-las, dize-las. Mas quem as ouve? Não sei!

Mergulhá-las no profundo, não é destino para um rio.

Transformá-las em gesto alado, quem dera?

Pois o ar está prensado, guilhotinado na poeira.


Se dizes: "- O barco é livre, do remo a força é própria,

no pescado não se interfere, pode andar na superfície!".

Eis aí as minhas palavras: abruptas, soltas de si.

Quero juntá-las, dizê-las, sem receio dos caminhos:

fazem tudo para retê-las, armados nos incisivos.


Devo, então, plantar uma árvore, no quintas de minha casa

que se chame Liberdade. Os seus frutos são palavras,

nascidas de um novo dia. Amadurecerão tranquilos:

como estrume terão sabres e algemas desoladas

e nas folhas a clorofila do calor dos meus vizinhos.

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