Alfredo Correia da Rocha
A palavra, no ser, é coisa viva,
gasta-se e morre, se não recriada.
É planta de um jardim que só dá flores
quando pacientemente cultivada.
Pode morrer no tempo quando nele
não mergulhar bem fundas as raízes
ou nem sequer deixar para o exemplo
do seu poder as suas cicatrizes.
A palavra é fruto de uma messe
que ao mau cultivador traz o castigo.
Torna-se um joio sobre a terra estéril,
do que a corrompe repudia abrigo.
A palavra é de ouro, se edifica,
mas é dano e miséria, se envilece.
Cavando o ódio é taça de veneno,
como é luz e amor de alma em prece.
Espada a cintilar de duplo fio,
ora é força brutal ora é justeza.
É gigante com um braço erguido ao céu
e outro indicando o abismo da torpeza.
É a ponte sobre a qual volitam anseios
projetando em espírito os ideais,
quando lançadas em bases duradouras
que a humanidade o não destrói, jamais.
Com ela a fulgir das luzes da Verdade,
Jesus de Nazaré remiu a terra.
Por ela, em tantas fases há história,
massacrara-se a vida em cada guerra.
A palavra é semente delicada,
nas mãos do mau ceifeiro se amesquinha;
quando das trevas nasce espalha a morte,
se vem da luz al Alto se encaminha.
Pode ser instrumento de grandeza
ou do indigno ferrete da opressão;
símbolo ser de honra e de nobreza,
ou descer, aviltada, à execração,
Dos lábios virginais de Joana D'arc
a palavra brotou como um luzeiro,
mas na boca dos monstros que a imolaram
em opróbrio aviltou o mundo inteiro,
A palavra arrastou-se na desonra
quando o mundo explorava a escravidão,
mas foi, no entanto, amor e sapiência
abolindo e aviltante servidão.
A palavra apoplética de fúria
de que se valem os líderes da terra,
gera a chacina horrenda em que se esmaga
a pobre humanidade em cada guerra.
Arma que o Eterno deu por dom aos homens,
a palavra é de paz ou de ódio cruel.
Nos montes de Judá tentou a Cristo,
e dos céus expulsou o anjo Lusbel.
A palavra exaltou a antiga Grécia
mas aviltou de Roma o imenso império.
Cobriu de glória os santos no martírio,
e as obras vãs tronou em cemitério.
Foi semente de amor sobre o Calvário,
foi com Caifás e Judas - perdição;
corrompida, degrada e envenena,
verdadeira, é ideal, sublimação.
Duas faces lhe dão força suprema,
com imenso poder de idade em idade;
uma que cava o abismo da mentira,
outra que busca Deus pela verdade.
Garanhuns | 10 de Setembro de 1976.
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