Luzinette Laporte de Carvalho* | Garanhuns, 16/07/1994
Falar sobre Drummond de Andrade é falar de um ser humano excepcional. Não foi necessário vê-lo pessoalmente. Nem mesmo falar-lhe ao telefone.
Carlos Drummond de Andrade veio até mim. Bastou para isso que eu lhe enviasse alguns originais. Respondeu-lhe, com excepcional gentileza, de próprio punho. Como se fôssemos de há muito conhecidos. E eu me desvanecia com seus cartões.
Conhecê-lo eu o conhecia. Suas poesias são ele. Falam de tudo que ele conheceu e des-conheceu. Porque tudo o interessava. Tudo. O homem e a natureza.
Tão profundamente sensível, era capaz de sensibilidade em relação a todos e a tudo.
Individual e comunitariamente, globalmente. (Diverso da sensibilidade mórbida do "eu", a dele era virtual, forte, irradiante, sã).
Pouco a pouco uma amizade foi crescendo entre nós.
Natal e Páscoa eu lhe enviava cartões.
Ele os respondia, a todos.
Sempre valorizando o que eu lhe remetia - Odes do sec. II ou pensamentos de Santo Agostinho, ou pequenas poesias infantis (infantis = de crianças de sete, oito, nove anos) -. Até que, no Natal 85, enviou-me um poema. Só para mim. Um poema de Natal. Meu, só meu (E no entanto, universal.) As primeira e última palavras em tom azul:
"Que me acode à cabeça e ao coração, neste fim de ano entre alegria e dor Que sonho, que mistério, que oração - Amor.
À querida amiga Luzinette, também os melhores votos de
Carlos Drummond
Rio, Natal, 1985."
"E agora, meu Deus?"
Agora, a gente sente uma dor tão sem nome, sem palavras. E correm silenciosas e invisíveis lágrimas como fogo e luz, no coração. E a alegria de tê-lo conhecido. Carlos Drummond não está mais entre nós. E isso dói muito. Mas deixou-nos um refúgio: a sua poesia.
*Professora, escritora, jornalista e cronista.

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