terça-feira, 31 de março de 2026

O Seresteiro de Águas Belas

Vista parcial de Águas Belas. Ruas 7 de Setembro e XV de Novembro e ao fundo a Serra do Comunaty na década de 1970.
Foto: Arquivo Público Municipal de Águas Belas - Apmab

Texto de Maria Maura Melo*

Uma voz que cantava em serenata,
No esplendor da fria madrugada,
Vem juntar-se ao murmúrio da cascata

Era aquele seresteiro apaixonado, que aproveitava o silêncio de uma pequena cidade do interior, onde as noites são tranquilas e escuras, para aliviar o peso de uma nostalgia, cantando aos acordes de seu violão, debruçado no balaústre da ponte, fitando as águas da ribeirinha, que passavam, entoando também seu murmúrio, como se compreendessem as queixas daquele coração, e chorava como todas as fontes choram.

Oh!... fonte que estás chorando,
Não tardarás a secar...
Também meus olhos são fontes,
Que não param de chorar

E continuando a sua canção, seguia a passos lentos se dirigindo para a gameleira da matriz, em frente a casa Iracema. Recostado no tronco daquela árvore gigantesca, cujos ramos se elevaram como se quisessem tocar as nuvens, que partiam dos píncaros da Serra do Comunaty, abrigava durante o dia, os mercadores da feira. Naquele tempo não havia açougue, e era ali que vendiam a carne, pendurada em forquilha de madeira. Vendiam também caldo-de-cana, frutas, galinhas, etc.

A lua em sua caminhada, enchendo o mundo de luz e vida, com o encanto da deusa dos poetas, o chamava para mais um passeio ao sopé da Cruz e ele cantava a sua despedida daquela noite de boemia:

Recorda-te de mim quando cismares
Em uma tarde de saudade infinda,
Quando a brisa brincar entre os palmares
Recorda-te de mim que te amo ainda

Mas o tempo tudo destrói, hoje nada mais resta. O seresteiro que era o Sérgio Malta, o destino levou-o para terras estranhas e não mais voltou. O balaústre e a ponte, não resistindo aos açoites de uma cheia violenta, se foram também. A gameleira e o cruzeiro, foram destruídos pela mão do homem, não respeitando a natureza e o prazer humano.

Resta apenas a ribeirinha que chora ainda, e o meu velho coração chora também, lembrando o passado mergulhado em meu mundo de recordações.

* A poetisa Maria Maura Melo, nasceu em Águas Belas, Pernambuco, em 8 de setembro de 1900. Filha de Braz de Melo e Silva e Maria Felismina de Melo, publicou  aos 86 anos o Livro "Emoções da Minha Vida"

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