quinta-feira, 12 de junho de 2025

Regionalismo que mudou a cultura brasileira


Manoel Neto Teixeira*

Sob a liderança de um jovem recém-chegado dos Estados Unidos, Gilberto Freyre, após realizar estudos avançados em instituições universitárias norte-americanas, tivemos no Recife a discussão e aprovação do Manifesto Regionalista de 1926, o qual iria influenciar na concepção de novos valores e dimensões extramuros da produção artístico-culturais da região e do Brasil.

Esse movimento cultural irrompido no Recife fundamentava-se na defesa dos valores regionais, sobretudo na tradição do que eles representavam, como criatividade da gente dessa região. Mas era, ao mesmo tempo, modernista, num sentido de renovação, de atualização que, sem desrespeitar o passado, buscava encontrar novas fontes de inspiração no próprio espírito nacional.

E o Manifesto Regionalista de 1926 é a expressão desse movimento, nele fixando-se as ideias que o nortearam, e dele extraindo-se as inspirações que iriam dar rumo ao que se pensava pôr em prática. Expressão desse regionalismo já havia sido, por exemplo, o Livro do Centenário do Diário de Pernambuco, edição 1925.

O ano de 1925 marca ainda a realização de um congresso, promovido por aquele movimento do Recife, e da leitura, nele, de um pronunciamento que, publicado anos depois, tomaria o título de “Manifesto Regionalista de 1926”.

Na abertura do ensaio sob o título: “O Movimento Regionalista, Tradicionalista e, a Seu Modo, Modernista do Recife”, Gilberto Freyre salienta: “Foi um movimento assistemático e um tanto anárquico no seu modo de aparecer e desenvolver-se, sem propriamente institucionalizar-se, esse que surgiu no Recife, na década de 20. Nele evitou-se de início qualquer doutrinarismo: fosse este o estético ou político”.

E completa: “Talvez possa ser considerado, de alguma maneira, expressionista pelo fato de ter se tornado um esforço de renovação cultural mais de dentro para fora do que de fora para dentro. Isto sem lhe ter faltado, em alguns pontos, inspirações europeias – sobretudo a do Yrlandismo de William Butter Yeats – e norte-americanas: sobretudo de sua New Poetey e de sua New History e da Antropologia renovadora de Franz Boas”.

O movimento do Recife, traduzido em expressões literárias e artísticas, procurava uma valorização dos elementos regionais que, através da pintura, do desenho, da música, da literatura, evidenciassem o espírito criador de sua gente. É assim que surgem, ou desenvolvem sua criação, na utilização da temática regional, poetas como Ascenso Ferreira, ou Manuel Bandeira; pintores como Vicente do Rego Monteiro, Manuel Bandeira (o pintor), Luís Soares, Luís Jardim; críticos como Olívio Montenegro; psicólogos como Sylvio Rabelo, e vários outros nomes que poderiam ainda ser lembrados.

Esse movimento teria, como era natural, repercussão nos estados vizinhos e daí também surgiram novas ideias criativas dentro do espírito regionalista que animava o movimento. Nele, ou nas ideias que o movimento regionalista aflora, inspiram-se novos nomes, como Jorge de Lima, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, entre outros.

É a partir dessas ideias que o Movimento Regionalista expressou, que os meios culturais de Pernambuco e do Nordeste se agitaram, projetando uma série de escritores, poetas, pintores, artistas em geral. Desses valores que então se projetaram e se firmaram surgiu uma contribuição expressiva ao movimento cultural do Brasil, através da valorização dos elementos regionais. A Bagaceira, de José Américo de Almeida, é um sinal desse movimento, seguindo-se os romances de José Lins do Rego sobre o ciclo da cana de açúcar e sobre aspectos, também regionais, relacionados com o cangaço e a paisagem marítima.

Grande parte desses novos elementos renovadores da cultura regional e nacional parte da própria obra de Gilberto Freyre, uma das marcas do movimento: o primeiro congresso afro-brasileiro realizado em 1934; o método então revolucionário de análise da formação brasileira que Casa Grande & Senzala introduziu e que iria criar discípulos; o curso de Sociologia como ciência não apenas social mas igualmente ecológica, dado na tradicional Faculdade de Direito do Recife; a pesquisa social baseada em anúncios e notícias de jornais, também introduzida sob a orientação de Gilberto Freyre; enfim, todo um acervo de iniciativas ou de ideias que representaria marcos expressivos no movimento cultural do Nordeste.

Esse novo fluxo de ideias e concepções renovadoras culminaria com a criação do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, através de projeto apresentado em 1949 pelo então deputado federal por Pernambuco Gilberto Freyre. Um novo olhar se projeta em todos os campos das ciências e das artes, a partir daí, o gosto pelo regional, pelas características próprias de cada região que formam esse continente Brasil.

Os primeiros ensaios produzidos dentro ou sob esse novo olhar regionalista, estudos e pesquisas sobre as regiões, suas características geográfico-antropológicas, sociais e econômicas, com interpretações abalizadas, tornando possível o conhecimento das diversidades do Brasil, dentro da sua unidade política, social e, em grande parte, também cultural.

*Manoel Neto Teixeira, jornalista e escritor, autor da série MULTIVISÃO, com nove volumes publicados, é membro da Academia Pernambucana de Letras Jurídicas, cadeira 4. E-mail: polysneto@yahoo.com.br 

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