quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Relembrando

Neide de Oliveira Tavares

Neide de Oliveira Tavares*

Bons tempos aqueles, quando todos se conheciam em Garanhuns. Parece ainda tão perto, o tempo em que as pessoas da cidade tornavam-se uma extensão da  nossa vida. O que sucedia a elas sempre nos atingia, e a gente era feliz ou triste, dependendo dos acontecimentos na  ocasião.

Bons tempos aqueles em que todos se visitavam, e as amizades eram de mais fácil consolidação. Até uma sala de  nossas casas era reservada para essas ocasiões. A sempre arrumada e impecável sala de visitas. Hoje chamamos de sala de estar. Não há mais visitas. Sempre estamos nessa sala. Trancados em casa, frequentemente diante de um aparelho de televisão.

Bons tempos aqueles em que na minha rua, bastava uma chegadinha à mercaria da esquina, que pertencia a seu Quincas, e anos depois a Aurides, para comprar o que se  precisava em casa. Ali se encontrava de tudo. E nem precisava de dinheiro. Levava-se na mão a caderneta, crédito dado a todo bom freguês, e se anotava a mercadoria desejada. No fim do mês o pagamento. Confiança mútua. Afinal, todos eram conhecidos. E bastava a palavra dada. A meninada, a executar os mandados dos mais velhos. Juros? Palavra desconhecida. Quando o comerciante era espertalhão, alterava a balança, mas o freguês desconfiava e logo passava a comprar noutro lugar. Isso era uma coisa rara, não acontecia com quem tinha uma freguesia a zelar.

Hoje, as vendas ou pequenas mercearias quase não existem. Na minha rua, nenhuma. Para que? Os grandes estabelecimentos tomaram conta da cidade. Em nome do progresso. E por falar em progresso, nunca esqueço de certo estabelecimento, que para funcionar teve de prejudicar uma buganvília, que existe no portão da minha casa, para instalação de um transformador do outro lado da rua. Essas coisas da vida que a gente não pode entender. Principalmente quando o ato é sem anuência dos donos da casa. E o argumento que ouvi, foi: É o progresso. Em protesto, a buganvília nunca mais floresceu, para oferecer sombra aos que por ali passavam.

Bons tempos aqueles em que o progresso ainda estava longe, e agente tinha sossego dentro de casa. E os vizinhos apareciam para uma prosa, ou então para agradar, trazendo um pratinho com alguma guloseima especial. Nada era comparável ao conforto que se tem hoje, com tanta tecnologia, e que nós gostamos tanto de desfrutar. Mas, por  conta da vida calma que transcorria rodeada de pessoas amigas, sem qualquer saudosismo, torno a dizer: bons tempos aqueles...

*Escritora, jornalista, cronista e professora | Livro "Lembranças de Garanhuns e outras mais".

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